AS TRÊS VIDAS DE MARIA (37) Aprender depois de morrer

— Espere — interveio Maria, de repente mais animada. — Acho que consigo imaginar o que aconteceu depois.

Antonio arqueou as sobrancelhas.

— Vamos ver. Surpreenda-me.

— As pessoas que foram entrando naquela sala deviam ter histórias parecidas com a sua. Não idênticas, claro, mas com elementos em comum. Talvez também tivessem morrido de forma inesperada e as reuniram ali para compartilhar o que havia acontecido, compreender melhor… uma espécie de troca de experiências.

Maria fez uma pequena pausa.

— Estou errada?

Antonio a contemplou com franca surpresa.

— Caramba…

— O quê?

— Estar com um cordão apertando o pescoço e, ainda assim, ser capaz de raciocinar com tanta clareza é de se admirar.

Maria fez uma leve careta.

— Obrigada por me lembrar da minha situação. Quase tinha conseguido esquecê-la por alguns minutos.

— Desculpe.

— Não importa. Suponho que esta experiência sirva justamente para isso: para me obrigar a pensar de uma maneira diferente. Ao que parece, um certo senhor chamado Ángel decidiu me conceder uma segunda oportunidade para que eu reflita antes de tomar uma decisão definitiva.

Antonio assentiu devagar.

— Não me surpreende. Desde que cheguei aqui, deixei de me espantar com muitas coisas. Os que organizam esses processos dispõem de possibilidades que nem sequer imaginávamos quando estávamos vivos.

— Então, acertei?

— Bastante.

Um sorriso satisfeito surgiu no rosto de Maria.

— Eu sabia que algum dia tinha de acertar uma.

Antonio deixou escapar um breve sorriso.

— Como eu estava dizendo, acabamos nos reunindo ali umas doze pessoas. No início, ninguém falava. Olhávamos uns para os outros de relance, tentando descobrir quem eram os demais e por que estávamos todos no mesmo lugar.

Sua expressão se tornou mais séria.

— Eu observava os rostos deles e via a mesma sensação que devia estar estampada no meu: desconcerto, medo, curiosidade… Uma mistura estranha.

— Ninguém perguntava nada?

— Alguns murmuravam em voz baixa, mas a maioria permanecia calada. Depois do que cada um havia vivido, suponho que ninguém tivesse muita certeza de nada.

Antonio permaneceu em silêncio por alguns segundos.

— Então apareceu um homem… como posso dizer, diferente.

— Como ele era?

— Elegante. Vestia terno e gravata, mas não transmitia nenhuma rigidez. Pelo contrário. Tinha um jeito de olhar e sorrir que conseguia tranquilizar você.

— Isso está começando a me parecer familiar.

— Por causa de Ángel?

— Exatamente. Parece que, no mundo de vocês, cuidam bastante da primeira impressão.

Antonio sorriu.

— Pode ser. Aquele homem nos convidou a nos acomodar nas poltronas e nos sofás. Fez isso com tanta naturalidade que, pouco a pouco, fomos obedecendo. Até os mais nervosos começaram a relaxar.

— E então ele falou?

— Sim.

Antonio assumiu uma expressão concentrada, tentando recuperar as palavras exatas.

— Ele nos explicou que todos havíamos chegado ali devido à maneira como tínhamos deixado o plano terrestre. Não entrou em detalhes particulares, mas afirmou que nossas trajetórias compartilhavam certos elementos e que isso justificava terem nos reunido.

Maria sorriu discretamente.

— Eu sabia que era por aí.

— Não se gabe demais.

— Deixe-me aproveitar meu momento de glória.

— Está bem, senhora adivinha.

A pequena brincadeira aliviou por alguns instantes a tensão entre os dois.

— Aquele homem acrescentou — prosseguiu Antonio — que a reunião tinha, inicialmente, um caráter informativo. Explicou que começariam a trabalhar conosco e que uma mulher especializada no assunto conduziria várias sessões terapêuticas.

Maria ficou pensativa.

— Então era mesmo uma terapia.

— Foi o que ele disse.

— Curioso. Eu sempre imaginei o além cheio de anjos tocando harpa. Nunca pensei em terapeutas.

Antonio riu suavemente.

— Pois garanto a você que não vi harpa nenhuma por lá, e o pessoal não usa asas. Além disso, eu acharia até ridículo.

— Ainda bem.

— Ele também nos explicou que haviam preparado algumas bebidas revigorantes para quem sentisse fraqueza ou falta de energia durante nossa permanência ali.

— Como a bebida esverdeada que você tomou.

— Exatamente.

Antonio apontou, com um sorriso, para a sala imaginária.

— Aquilo me lembrou os congressos. Sabe como é: você passa várias horas ouvindo palestras e, no meio da manhã, aparecem o café, os sucos e alguma coisa para comer.

— Só que vocês tinham acabado de morrer.

— Esse pequeno detalhe mudava bastante o congresso.

Os dois riram outra vez.

— Ele nos esclareceu que não era obrigatório tomar aquelas bebidas — continuou Antonio. — Só devíamos fazê-lo se sentíssemos cansaço ou falta de vitalidade.

Sua expressão se tornou reflexiva.

— Confesso que, durante alguns minutos, tive a sensação absurda de que éramos cobaias de laboratório em um enorme experimento psicológico.

— Depois de tudo o que você havia passado, não me parece uma conclusão tão absurda.

— Naquele momento, também não me pareceu.

Continua…

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