— Não, não faça isso — gritou Antonio com todas as forças. — Não tente, Maria. Não vai gostar.
Mas o aviso chegou tarde demais. Maria já havia se inclinado para a frente, com os braços estendidos e o corpo inteiro submetido a uma vontade desesperada.
— O que está dizendo? Quero… chegar… até você — conseguiu articular, enquanto lutava para se soltar daquela amarra invisível.
Não havia corda alguma ao redor de sua cintura, nem mãos que a segurassem pelos ombros. E, no entanto, algo mais firme que uma parede se opunha ao seu avanço. Deu um passo, ou acreditou tê-lo dado, mas seus pés permaneceram fincados no mesmo lugar. Tentou de novo. Todos os músculos se retesaram; os braços tremiam e a respiração se partiu em pequenos arquejos. Antonio estava ali, a poucos passos, tão perto que ela podia distinguir a angústia em seu rosto e, ao mesmo tempo, tão longe quanto durante os cinco anos de ausência.
— Maria, chega. Por favor…
Ela não quis ouvi-lo. Empurrou mais uma vez contra aquela resistência sem forma, tomada pela impotência e pela raiva. Não conseguiu se aproximar nem um centímetro. O esforço acabou por esvaziá-la, e ela caiu de costas, vencida, como se uma força repentina lhe houvesse retirado o chão sob os pés.
Durante alguns instantes, permaneceu imóvel. Depois, apoiando-se com dificuldade, conseguiu se levantar. Já não lhe restavam forças para desafiar a barreira. Só pôde erguer os braços na direção do marido e mantê-los estendidos em um abraço impossível.
Antonio fez menção de avançar, mas se deteve. Ele também parecia preso a um limite que não ousava transpor.
— Eu avisei, meu bem. Não tente outra vez. Minha alma se despedaça ao vê-la assim. Já haviam me avisado de que isso poderia acontecer.
— Já lhe haviam avisado? — Maria o encarou, desconcertada. — Então, são eles que não me permitem fazer isso? Quero abraçá-lo, mas não deixam.
— Era isso que eu tentava lhe dizer, meu amor. Não desperdice suas forças. Não disponho de muito tempo, e são tantas as coisas que gostaria de lhe contar…
Maria deixou os braços caírem. Aquele gesto de rendição lhe doeu mais do que a queda.
— Está bem — aceitou, depois de soltar um longo suspiro. — Estou ouvindo.
Antonio pareceu se acalmar, embora a emoção continuasse aflorando em cada palavra.
— Se soubesse quantas vezes pedi para me comunicar com você… insisti tanto que, no fim, me concederam esta oportunidade. Mas impuseram uma condição: só poderia haver palavras entre nós, nenhum contato. Tive de escolher entre isso ou ficar sem nada.
— Não entendo. Por que uma condição tão dolorosa?
— Não tenho certeza dos motivos. Só me disseram que eu ainda não estava preparado. É duro, eu sei. Para mim também. Mas, pelo menos, podemos nos olhar e conversar.
Maria baixou a cabeça. A explicação não amenizava a dor, mas lhe recordou que aquele encontro, por mais incompleto que fosse, era muito mais do que havia tido durante anos.
— Sim, suponho que tenha razão. Eles têm a chave de tudo isso. — Fez uma pausa antes de continuar. — Foram cinco anos sem você, Antonio. Cinco anos. Não pode imaginar o peso de sua ausência. Talvez eu esteja falando como se quisesse censurá-lo, e isso não é justo. Me perdoe. É que a solidão se tornou tão imensa que acabei me perdendo dentro dela. Há dias em que nem sequer me sinto com forças para cuidar do nosso Tony.
O nome do rapaz transformou a expressão de Antonio.
— Como ele está? Ainda se lembra de mim? — perguntou, incapaz de esconder a emoção.
— Como poderia se esquecer do próprio pai? Claro que se lembra. Embora… receio que também o culpe por tê-lo deixado órfão. Sei que é duro ouvir isso, mas acho que essa raiva é a forma que encontrou de sentir sua falta. Agora está em plena adolescência e precisa de você de outra maneira. Pense que tinha apenas dez anos quando você se foi.
Antonio fechou os olhos, como se tentasse recuperar na escuridão a última imagem do filho ainda criança.
— Como eu lamento, meu amor. Eu teria dado qualquer coisa para permanecer ao seu lado, vê-lo crescer, educá-lo, acompanhá-lo durante esses anos. — Abriu os olhos e buscou o olhar de Maria. — Diga-me, meu pequeno está bem?
Ela levou alguns segundos para responder. As lágrimas lhe haviam embaçado os olhos, mas um sorriso tênue suavizou sua expressão.
— Seu pequeno já está quase um homem. Precisa encontrar seu lugar e decidir o que quer fazer da vida. Tem a cabeça cheia de dúvidas, como qualquer rapaz da idade dele, e, por enquanto, não se meteu em nenhum problema sério. Só que ficou um pouco rebelde. A quem será que puxou?
Um sorriso fugaz atravessou o rosto de Antonio.
— Receio que a mim. Lembro bem de como eu era na idade dele. — O sorriso desapareceu de imediato. — Mas não me contou tudo, Maria. Há algo em seu olhar que não condiz com suas palavras. Percebo que está preocupada. O que está acontecendo com Tony?
— Não sei ao certo. São essas malditas companhias do bairro. Você sabe que não moramos na melhor região da cidade. Há muitos garotos que desistiram de tudo antes mesmo de saber o que queriam e passam os dias largados na rua, como se o futuro não lhes dissesse respeito.
— Nada de novo, infelizmente — murmurou Antonio.
— Tony nunca foi um garoto aberto. Tem dificuldade para se aproximar dos outros e ainda mais para se sentir aceito. O que me preocupa é que, para conquistar um lugar entre eles, acabe fazendo coisas que não faria por conta própria. Essa necessidade de pertencer, de ser reconhecido pelos outros… Essa é a fraqueza dele. E eles podem se aproveitar disso.
O silêncio se estendeu entre os dois. Naquele vazio, Tony ficou suspenso: o menino de quem Antonio se lembrava e o adolescente que Maria mal sabia como proteger. Por um instante, ambos pareceram entregues ao mesmo temor, embora estivessem separados por cinco anos, dois planos distintos e aquela fronteira que nem sequer o amor lhes permitia atravessar.
— Diga-me, Maria — pediu ele, por fim. — O que mais aconteceu durante todo esse tempo?
— Bem, pelo menos nem tudo foi desgraça. Graças a Deus, o seguro quitou o que restava do financiamento do apartamento. Foi um alívio enorme, embora não o suficiente para nos mudarmos para outra região. Meu salário cuidando de idosos não faz milagres, e a pensão por morte também não dá para muito mais.
Antonio assentiu, mas mal pareceu ouvir o final. Havia outra pergunta em sua mente. Maria a viu se formar em seu rosto antes que ele se decidisse a pronunciá-la.
— Meu bem, preciso te fazer uma pergunta importante. Não é fácil para mim, mas preciso saber…
— Sim — disse ela, com uma serenidade que não sentia. — Imagino o que quer me perguntar.
Antonio desviou o olhar por um instante.
— Você voltou a se apaixonar? Vive com algum homem? Já se passaram cinco anos, Maria. Tempo demais de solidão…
Ela o contemplou sem se sentir ofendida. Na hesitação de Antonio, não viu ciúme algum, mas medo: o temor de quem regressa tarde e não sabe que lugar ainda conserva na vida daqueles que deixou para trás.
— Não tenho nada a esconder. Embora ainda seja jovem, não estive com nenhum homem. Nem sequer senti vontade de me aproximar de alguém. Talvez tenha sido por Tony, pelo trabalho ou, simplesmente, porque ainda sinto demais a sua falta. Sua ausência ocupou um espaço tão grande em minha vida que não deixou lugar para mais ninguém.
Antonio permaneceu em silêncio antes de responder. Quando o fez, sua voz havia adquirido uma nova doçura, desprovida de qualquer sombra de posse.
— Se aprendi alguma coisa desde que estou aqui, é que você e eu agora vivemos em planos diferentes, cada um com seus assuntos, seus deveres e seu próprio caminho. Eu compreenderia se você se apaixonasse por outro homem. De verdade. Merece se sentir acompanhada e ter ao seu lado alguém com quem enfrentar os problemas. Digo isso de coração: não quero que transforme minha lembrança em uma condenação. A vida continua para você, Maria. Precisa continuar. Entende?
Ela assentiu devagar. Teria desejado atravessar a distância que os separava, lhe acariciar o rosto e lhe agradecer, sem palavras, aquela generosidade. Mas a barreira continuava ali, tão silenciosa e implacável quanto antes.
— Sim, meu bem. Entendo e agradeço. Depois de tantos anos juntos, depois de tudo o que compartilhamos, não esperava menos de você. Quem sabe o que a existência nos reservará.
Maria ergueu o olhar. Algo havia mudado dentro dela. A emoção do reencontro deu lugar a uma gravidade que Antonio percebeu de imediato.
— Há outra coisa, meu amor. Essas pessoas que tornaram nosso encontro possível possuem um poder imenso. Acho que podem acelerar ou retardar a passagem do tempo, abrir as portas de lembranças que julgávamos perdidas e planejar acontecimentos que jamais teríamos imaginado. Por isso, embora tudo isso tenha sido brutal para mim, pude estar lá. Vi o momento exato em que lhe tiraram sua vida.
Continua…
