Antonio fez uma pausa.
— Graças à indenização que vocês receberam, você pôde quitar a hipoteca da casa e, além disso, o consórcio de taxistas lhe pagou aquela quantia que ajudou vocês durante os anos seguintes.
A mulher permaneceu imóvel, tentando recuperar aquelas lembranças.
— Você acaba de me deixar estarrecida. É verdade. Sem aquele dinheiro, não sei o que teria sido de Tony e de mim. Meu salário na residência mal dava para manter a casa e pagar todas as despesas.
Antonio assentiu.
— Foi isso que acabou de vez com o meu orgulho. Compreendi que, durante anos, eu havia pensado apenas no risco que eu próprio corria, como se minha vida me pertencesse de forma isolada. Mas não era assim. Cada uma das minhas decisões podia arrastar vocês junto comigo.
Maria baixou o olhar.
— E poderia ter sido muito pior.
— Muito pior. Eu poderia ter causado a morte de alguém, ter morrido em um daqueles acidentes ou ter deixado vocês em uma situação econômica desesperadora.
Antonio respirou fundo.
— Por isso, em meio à tragédia da minha morte, cheguei até a sentir certo alívio ao compreender que não havia arrastado nenhuma outra pessoa comigo e que vocês, pelo menos, haviam ficado protegidos do ponto de vista econômico.
Maria levantou um dedo, advertindo-o:
— Não confunda as coisas. Isso não transforma sua morte em algo bom nem significa que alguém tivesse de atropelar você para consertar nossa vida.
— Não, claro que não. Miguel jamais me disse isso. Fui eu que, tentando compreender o que havia acontecido, comecei a relacionar umas consequências com outras.
— Assim está melhor.
Antonio sorriu levemente.
— O que aprendi foi outra coisa: que nossos atos geram efeitos que muitas vezes atingem pessoas que nem sequer levamos em conta quando tomamos uma decisão.
Maria permaneceu pensativa.
— E, no seu caso, Tony e eu estávamos muito mais ligados às suas decisões do que você queria admitir.
— Exatamente.
A mulher ficou em silêncio. As palavras de Antonio haviam remexido lembranças que, durante cinco anos, ela conservara quase intactas.
— Há outra coisa em que eu não havia pensado — disse finalmente.
— O quê?
— Como eu teria me lembrado de você se tudo aquilo tivesse vindo à tona quando você morreu.
Antonio a observou com atenção.
— Imagine se, depois da sua morte, eu tivesse descoberto o álcool, a cocaína, o Ícaro, as mulheres… tudo.
— Você não teria chorado pelo mesmo homem.
Maria recebeu a frase em silêncio.
Era exatamente isso.
— Durante cinco anos, conservei na cabeça a imagem de um marido trabalhador que um desconhecido havia arrancado de nós. Uma vítima.
— E agora você sabe que a realidade era mais complicada.
— Muito mais.
Maria respirou fundo.
— Este relato está me obrigando a rever nosso casamento inteiro.
Antonio pareceu entristecer-se.
— Eu entendo.
— Não sei se entende completamente.
Maria começou a caminhar devagar, como se precisasse se mover para organizar os pensamentos.
— Nossa relação vinha se deteriorando havia muito tempo. Quase não nos víamos, embora morássemos sob o mesmo teto.
Antonio permaneceu imóvel.
— Você chegava de madrugada. Muitas vezes ia direto dormir no outro quarto.
— Eu dizia que era para não te acordar.
— Sim.
Maria se voltou para ele.
— Mas agora sei que você também fazia isso para que eu não sentisse o cheiro de álcool, não visse seus olhos nem perguntasse por que chegava naquele estado.
Antonio baixou a cabeça.
— Sim.
— Eu me levantava cedo, arrumava Tony, levava-o para a escola e depois ia trabalhar na residência.
Sua voz perdeu força.
— Quando eu voltava para casa, muitas vezes você já tinha saído.
— Eu me lembro.
— E assim, um dia depois do outro.
Maria abriu as mãos, impotente.
— Eu cuidando do menino, das compras, da casa… e você circulando pelo aeroporto e pelo Ícaro, levando clientes para aquele lugar e participando daquela vida.
Antonio não tentou se defender.
— Meu Deus — murmurou ela. — Como pude passar tanto tempo sem perceber?
Fez-se silêncio.
Maria olhou para a estrada, mas, dessa vez, sua expressão não revelava apenas indignação.
Havia algo novo.
Dúvida.
— Ou talvez eu percebesse algumas coisas.
Antonio levantou a cabeça.
— O que você quer dizer?
— Que talvez houvesse sinais.
Maria estreitou os olhos, concentrada em suas lembranças.
— Seus horários. A distância entre nós. Aquelas noites em quartos separados. Suas mudanças de humor. O dinheiro que aparecia de repente.
— Você nunca soube o motivo.
— Não. Mas talvez eu também não tenha perguntado demais.
Antonio permaneceu calado.
— Talvez fosse mais cômodo pensar que nosso casamento era como o de tantos casais: cansaço, trabalho, rotina, um filho, problemas financeiros…
Maria sorriu com tristeza.
— A gente diz a si mesmo que está tudo bem porque reconhecer o contrário nos obriga a tomar decisões.
Antonio a olhou com uma mistura de tristeza e compreensão.
— Acho que estou começando a entender o que você quer dizer.
— Não estou justificando você.
— Eu sei.
— Muito menos dividindo com você a responsabilidade pelas suas mentiras.
— Eu também não pediria isso a você.
Maria respirou fundo.
— Só estou reconhecendo algo que me incomoda: talvez, durante anos, eu também tenha preferido olhar para o outro lado.
Antonio ficou em silêncio.
Ela voltou o olhar para ele.
— Você escondia uma vida.
Fez uma pausa.
— E talvez eu escondesse minhas suspeitas.
Pela primeira vez desde que começara aquela dura confissão, nenhum dos dois sentiu necessidade de se defender. Limitaram-se a permanecer ali, frente a frente, contemplando os restos de um casamento que ambos começavam a compreender tarde demais.
Continua…
