— Vamos, cale a boca de uma vez — acrescentou a funcionária, com certo desdém. — Além disso, se esses velhos morressem todos, do que nós iríamos viver? E, se as coisas fossem como antes, quando os avós envelheciam na casa dos filhos, estas residências nem existiriam. Teríamos que procurar outro ofício.
— Isso também é verdade — respondeu o homem, torcendo o gesto. — Anda, vai ver o que aquela senhora quer. Acho que está pedindo água.
— Lá vem a chata. Sempre precisa de alguma coisa. Embora, para ser sincera, pra mim ela não pede água; pede atenção. Comporta-se como uma criança.
— Então pare de reclamar, senão ainda vai ganhar uma úlcera.
Aquela conversa terminou tão bruscamente quanto havia começado.
— Que desgraçados! — exclamou Maria, indignada. — Quando eu trabalhava aqui, nunca suportei esse tipo de comentário. Não são profissionais e muito menos humanos. A senhora não acha, dona Ana?
A idosa sorriu com calma.
— Deixe pra lá, minha querida. A ignorância costuma ser atrevida. Na verdade, sem perceber, eles acabaram de nos mostrar o que carregam por dentro.
— Sim, infelizmente. Eu nunca gostei muito desses dois. São do tipo que vêm cumprir tabela e nada mais. Não sentem nenhum compromisso com o que fazem.
Maria negou com a cabeça.
— Quem os ouvisse pensaria que estão cercados de móveis, e não de pessoas. A senhora percebeu o desprezo escondido nas palavras deles?
— Não me surpreende. Quando alguém não compreende um fenômeno, a explicação mais cômoda costuma ser pensar que se trata de loucura.
Ana observou brevemente os trabalhadores.
— Nenhum deles vai se aproximar para me perguntar o que estou fazendo ou com quem estou falando. Para eles, é muito mais simples concluir que a senhora Ana está senil, e assunto encerrado.
— Assim poupam o esforço de aprofundar.
— Exatamente. E, se eu tivesse agido assim durante a minha vida profissional, jamais teria conseguido ensinar alguma coisa aos meus alunos. Para compreender uma pessoa, é preciso interessar-se por ela.
— Parece que alguns têm a consciência adormecida.
A idosa soltou uma pequena gargalhada.
— Adormecida? Para mim, eles dormem há séculos.
— E, se acordassem, talvez levassem um grande susto.
— Provavelmente. Às vezes é mais cômodo permanecer na ignorância do que enfrentar certas perguntas.
Maria assentiu.
— Claro. Se levantassem certas questões, teriam que rever muitas de suas ideias.
Ana permaneceu alguns segundos pensativa.
— Bem, Maria, talvez tudo isso tenha algo a ver com você.
A mulher franziu a testa.
— Comigo? Não estou entendendo.
— Sim. Diga-me uma coisa. Você já compreendeu por que queria tirar a própria vida?
A pergunta a pegou de surpresa.
Ela ficou em silêncio por alguns instantes antes de responder.
— Não tenho certeza. Acho que eu repetia constantemente para mim mesma que a minha vida não podia continuar assim. Que o meu trabalho era esgotante. Que a solidão estava me consumindo. Que criar sozinha um adolescente era demais para mim. Coisas desse tipo.
— É uma resposta sincera.
Ana a observou com atenção.
— Mas você não percebe que, de certo modo, seus raciocínios se parecem bastante com os que acabamos de ouvir?
Maria arregalou levemente os olhos.
— Não acho que seja a mesma coisa. Cada pessoa vive os próprios problemas.
— Naturalmente. Mas talvez aí esteja uma das chaves do seu sofrimento.
— Não entendo.
— Quero dizer que você passou muito tempo contemplando a sua dor por dentro, analisando-a sem descanso. E, quando a gente olha apenas para si mesma, corre o risco de perder a perspectiva.
Maria permaneceu calada.
— Você não acha que ajudar os outros, interessar-se pelas dificuldades deles ou simplesmente escutá-los pode nos tirar desse isolamento?
— Pode ser…
— Pense nisso. Passar o dia inteiro examinando os seus pensamentos, as suas emoções e as suas preocupações deve ser esgotante.
Ana sorriu.
— Olhe para mim. Hoje continuo vivendo nesta residência, continuo numa cadeira de rodas e sigo cercada de limitações. No entanto, aqui estou.
— A diferença é que agora a senhora está desabafando comigo. Sente-se acompanhada.
— Exatamente.
A idosa apontou para Maria com um dedo.
— Você acabou de encontrar algo importante.
— Encontrei?
— Estamos conversando há bastante tempo. Você me escuta e eu escuto você. Compartilhamos nossas inquietações, nossos erros e nossas feridas. E o que acontece quando fazemos isso?
Maria refletiu por alguns segundos.
— Nós nos sentimos melhor.
— Isso mesmo.
Ana sorriu, satisfeita.
— Quando compartilhamos o que carregamos por dentro, deixamos de carregar tudo completamente sozinhas. Além disso, aprendemos com a experiência dos outros.
A mulher fez uma pausa.
— Por isso é tão importante sair desse círculo em que a pessoa só pensa em si mesma. Às vezes acabamos presas numa espécie de ciclo em que tudo gira em torno dos nossos pensamentos, das nossas emoções e do nosso sofrimento.
Maria baixou o olhar.
— Sim… acho que começo a compreender.
Respirou fundo.
— Que curioso. A senhora foi professora de História, mas agora parece uma terapeuta.
Ana soltou uma gargalhada sonora.
— Não exagere.
— Não, estou falando sério. A senhora está me obrigando a observar como a minha cabeça funcionava e a reconhecer que eu passava tempo demais usando padrões que não me ajudavam em nada.
A idosa sorriu.
— Então talvez esta conversa esteja cumprindo o seu propósito.
Continua…
