Maria o observou com incredulidade.
— Terapia?
— Sim.
— É mais um dos seus jogos de palavras? Ou está rindo de mim na minha cara?
— Nunca falei com você com tanta sinceridade quanto esta noite. Agora não tenho motivo algum para continuar mentindo nem para esconder minhas misérias.
— Não venha me dizer que, no além, vocês também fazem terapia para limpar tranquilamente a consciência.
— Não se trata de limpar a consciência nem de fingir que nada aconteceu. É justamente o contrário: recordar, reconhecer e assumir.
Maria balançou a cabeça em negativa.
— Ainda não cheguei a essa parte — acrescentou Antonio. — Com um pouco de paciência, poderia te explicar.
— Está pedindo paciência a mim? — retrucou ela. — À mulher que você manteve enganada durante anos?
— Sei que não tenho o direito de exigir isso de você.
— Pode me contar o que quiser, mas nenhuma história sobre o seu mundo eliminará sua responsabilidade nem comigo nem com Tony.
— Não pretendo eliminá-la. Nem poderia. Só preciso me livrar das mentiras e te contar o que aconteceu comigo depois que cheguei a esta dimensão.
Maria voltou a encará-lo com dureza.
— Não diga «me livrar», como se confessar tudo permitisse que você ficasse limpo enquanto eu agora carrego toda essa sujeira.
Antonio sentiu o golpe.
— Você tem razão. Escolhi mal a palavra. Quero te mostrar o processo que me obrigou a reconhecer quem eu havia sido. Talvez assim compreenda que, aqui, ninguém escapa de si mesmo.
Maria permaneceu calada por alguns instantes. Sua respiração começava a se acalmar, embora a dor continuasse intacta.
— Está bem. Vou te ouvir — disse por fim. — Talvez assim eu consiga tirar do rosto esta expressão de idiota que devo estar fazendo depois de descobrir a vida secreta do meu marido.
— Você não foi idiota, Maria. Confiava em mim. Quem traiu essa confiança fui eu.
Ela pareceu se surpreender com a resposta, mas não lhe concedeu nenhum gesto de reconciliação.
— Continue.
Antonio levou a mão ao coração.
— Todos teremos de enfrentar algo semelhante algum dia. Cada um responderá pelo que fez e pelo que deixou de fazer. Por isso, acho que é bom que você saiba disso. Não para te assustar, mas para você compreender melhor o funcionamento da vida e as consequências de nossas decisões.
— Você ia me contar de qualquer maneira, quer eu quisesse ouvir ou não.
— Só quero compartilhar minha experiência. Talvez possa ser útil para você.
Maria moveu o braço com impaciência, indicando que ele prosseguisse.
— Fale.
Antonio respirou fundo.
— Naquele dia, no quarto, a sede acabou vencendo minha desconfiança. Eu já havia passado muito tempo olhando para aquele copo de bebida esverdeada. Primeiro o aproximei do nariz, tentando descobrir o que continha. Tinha cheiro de frutas e não parecia perigoso.
— E, no fim, você bebeu.
— Sim. Peguei o copo com as duas mãos e bebi quase de uma vez. Estava desesperado.
Ficou em silêncio, recordando a sensação.
— Pouco depois, algo estranho aconteceu. Minha mente começou a trabalhar a uma velocidade insuportável. Uma imagem dava lugar a outra, depois a outra. Eram lembranças da minha vida, algumas esquecidas havia anos. Não conseguia fazê-las parar nem desviar o olhar.
Maria esqueceu por alguns instantes a raiva.
— Você viu toda a sua existência?
— Não de forma ordenada. Não foi como assistir a um filme desde o nascimento até a morte. Surgiam cenas específicas: decisões, palavras, oportunidades, o mal que eu havia causado sem lhe dar importância… Era como se alguém tivesse selecionado os momentos que eu precisava rever.
— Isso também não é novidade alguma. Sempre se falou de uma espécie de julgamento depois da morte.
Antonio balançou lentamente a cabeça em negativa.
— A palavra «julgamento» pode induzir ao erro. Não vi tribunal algum nem ninguém me acusando. Era eu quem observava meus próprios atos sem poder me justificar nem esconder as consequências.
— Então você mesmo era o acusado e o juiz.
— Era mais como um aluno obrigado a revisar uma prova cheia de respostas erradas.
Maria o observou com atenção.
— E você também viu o que havia feito comigo?
A expressão de Antonio voltou a ficar sombria.
— Sim.
— Tudo?
— Tudo o que eu precisava recordar.
Maria voltou a sentir a ferida, embora desta vez tenha permanecido em silêncio.
— Compreendi que aquela revisão não pretendia me castigar — prosseguiu Antonio. — Eu precisava ter certeza de que não esqueceria o que havia vivido, de que não voltaria a escondê-lo sob as mesmas desculpas. Tinha de observar minha existência com uma clareza que nunca tivera enquanto estava vivo.
Apesar da repulsa e da dor que ainda sentia, Maria não conseguia disfarçar a atenção com que o escutava. Antonio já não era apenas o marido infiel cuja verdadeira vida ela acabara de descobrir. Era também alguém que atravessara a morte e voltara para lhe contar que, do outro lado, nenhuma mentira consegue sobreviver para sempre.
Continua…
