AS TRÊS VIDAS DE MARIA (33) Nenhuma mentira sobrevive

Maria o observou com incredulidade.

— Terapia?

— Sim.

— É mais um dos seus jogos de palavras? Ou está rindo de mim na minha cara?

— Nunca falei com você com tanta sinceridade quanto esta noite. Agora não tenho motivo algum para continuar mentindo nem para esconder minhas misérias.

— Não venha me dizer que, no além, vocês também fazem terapia para limpar tranquilamente a consciência.

— Não se trata de limpar a consciência nem de fingir que nada aconteceu. É justamente o contrário: recordar, reconhecer e assumir.

Maria balançou a cabeça em negativa.

— Ainda não cheguei a essa parte — acrescentou Antonio. — Com um pouco de paciência, poderia te explicar.

— Está pedindo paciência a mim? — retrucou ela. — À mulher que você manteve enganada durante anos?

— Sei que não tenho o direito de exigir isso de você.

— Pode me contar o que quiser, mas nenhuma história sobre o seu mundo eliminará sua responsabilidade nem comigo nem com Tony.

— Não pretendo eliminá-la. Nem poderia. Só preciso me livrar das mentiras e te contar o que aconteceu comigo depois que cheguei a esta dimensão.

Maria voltou a encará-lo com dureza.

— Não diga «me livrar», como se confessar tudo permitisse que você ficasse limpo enquanto eu agora carrego toda essa sujeira.

Antonio sentiu o golpe.

— Você tem razão. Escolhi mal a palavra. Quero te mostrar o processo que me obrigou a reconhecer quem eu havia sido. Talvez assim compreenda que, aqui, ninguém escapa de si mesmo.

Maria permaneceu calada por alguns instantes. Sua respiração começava a se acalmar, embora a dor continuasse intacta.

— Está bem. Vou te ouvir — disse por fim. — Talvez assim eu consiga tirar do rosto esta expressão de idiota que devo estar fazendo depois de descobrir a vida secreta do meu marido.

— Você não foi idiota, Maria. Confiava em mim. Quem traiu essa confiança fui eu.

Ela pareceu se surpreender com a resposta, mas não lhe concedeu nenhum gesto de reconciliação.

— Continue.

Antonio levou a mão ao coração.

— Todos teremos de enfrentar algo semelhante algum dia. Cada um responderá pelo que fez e pelo que deixou de fazer. Por isso, acho que é bom que você saiba disso. Não para te assustar, mas para você compreender melhor o funcionamento da vida e as consequências de nossas decisões.

— Você ia me contar de qualquer maneira, quer eu quisesse ouvir ou não.

— Só quero compartilhar minha experiência. Talvez possa ser útil para você.

Maria moveu o braço com impaciência, indicando que ele prosseguisse.

— Fale.

Antonio respirou fundo.

— Naquele dia, no quarto, a sede acabou vencendo minha desconfiança. Eu já havia passado muito tempo olhando para aquele copo de bebida esverdeada. Primeiro o aproximei do nariz, tentando descobrir o que continha. Tinha cheiro de frutas e não parecia perigoso.

— E, no fim, você bebeu.

— Sim. Peguei o copo com as duas mãos e bebi quase de uma vez. Estava desesperado.

Ficou em silêncio, recordando a sensação.

— Pouco depois, algo estranho aconteceu. Minha mente começou a trabalhar a uma velocidade insuportável. Uma imagem dava lugar a outra, depois a outra. Eram lembranças da minha vida, algumas esquecidas havia anos. Não conseguia fazê-las parar nem desviar o olhar.

Maria esqueceu por alguns instantes a raiva.

— Você viu toda a sua existência?

— Não de forma ordenada. Não foi como assistir a um filme desde o nascimento até a morte. Surgiam cenas específicas: decisões, palavras, oportunidades, o mal que eu havia causado sem lhe dar importância… Era como se alguém tivesse selecionado os momentos que eu precisava rever.

— Isso também não é novidade alguma. Sempre se falou de uma espécie de julgamento depois da morte.

Antonio balançou lentamente a cabeça em negativa.

— A palavra «julgamento» pode induzir ao erro. Não vi tribunal algum nem ninguém me acusando. Era eu quem observava meus próprios atos sem poder me justificar nem esconder as consequências.

— Então você mesmo era o acusado e o juiz.

— Era mais como um aluno obrigado a revisar uma prova cheia de respostas erradas.

Maria o observou com atenção.

— E você também viu o que havia feito comigo?

A expressão de Antonio voltou a ficar sombria.

— Sim.

— Tudo?

— Tudo o que eu precisava recordar.

Maria voltou a sentir a ferida, embora desta vez tenha permanecido em silêncio.

— Compreendi que aquela revisão não pretendia me castigar — prosseguiu Antonio. — Eu precisava ter certeza de que não esqueceria o que havia vivido, de que não voltaria a escondê-lo sob as mesmas desculpas. Tinha de observar minha existência com uma clareza que nunca tivera enquanto estava vivo.

Apesar da repulsa e da dor que ainda sentia, Maria não conseguia disfarçar a atenção com que o escutava. Antonio já não era apenas o marido infiel cuja verdadeira vida ela acabara de descobrir. Era também alguém que atravessara a morte e voltara para lhe contar que, do outro lado, nenhuma mentira consegue sobreviver para sempre.

Continua…

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