AS TRÊS VIDAS DE MARIA (47) O beijo impossível

— Não sou ninguém para te dar conselhos, Maria. Na minha situação, sou apenas um aluno tentando avançar no próprio aprendizado.

Antonio fez uma pausa. Olhou para ela com uma ternura que havia anos ela não via em seus olhos.

— Mas posso te pedir uma coisa: continue lutando.

Maria permaneceu em silêncio.

— Depois de tudo o que você viveu e de tudo o que conversamos esta noite, pelo menos agora sabe algo que antes ignorava: acabar com o corpo não significa acabar com a existência.

Ela baixou o olhar.

— Pela minha experiência, a morte não resolveu nenhum dos meus problemas — prosseguiu Antonio. — Levei comigo aquilo que eu era, meus erros, minhas tendências, as consequências dos meus atos… Tudo.

Sua voz se tornou mais grave.

— Por isso, você precisa pensar muito bem no que está fazendo. E, acima de tudo, lembrar-se do que há de mais importante em sua vida.

Maria ergueu lentamente os olhos.

— Tony.

— Tony — repetiu ele.

O nome do filho pareceu mudar imediatamente a atmosfera entre os dois.

— Eu ajudei a trazê-lo ao mundo — continuou Antonio —, mas depois esqueci o que realmente importava: criá-lo, educá-lo, acompanhá-lo, estar presente quando ele precisasse de mim. É isso que mais me dói agora. Não ter entendido que ser pai não significa apenas levar dinheiro para casa.

Maria sentiu um estremecimento.

— Você ainda está a tempo.

— A tempo de quê?

— De fazer o que eu não fiz.

Antonio se aproximou o máximo que aquela estranha fronteira entre os dois permitia.

— Você terá que reorganizar sua vida, Maria. Não estou dizendo para abandonar seu trabalho nem deixar de cuidar de seus velhinhos. Sei o quanto eles significam para você. Mas terá que se perguntar onde está colocando aquilo que possui de mais valioso.

— Meu tempo?

— Exatamente.

Antonio sorriu com tristeza.

— Dinheiro se recupera. Um emprego pode ser trocado. As coisas materiais vêm e vão. Mas uma tarde que você não passou com seu filho, uma conversa que nunca teve com ele, um abraço que adiou porque estava cansada demais… isso não volta.

Maria engoliu em seco.

— Não quero que aconteça com você o mesmo que aconteceu comigo. Converse com Tony. Escute-o. Faça coisas com ele. Conheça seus medos, seus sonhos, seus amigos. Deixe que ele também conheça a própria mãe.

Antonio abriu as mãos.

— Construa essa intimidade que nasce entre duas pessoas quando sabem que podem confiar uma na outra. Que investimento poderia ser melhor do que esse?

Maria sentiu que as palavras começavam a doer.

— Pense nisso e decida — acrescentou Antonio. — Porque, no fim, só você pode fazer isso.

A mulher compreendeu perfeitamente a que ele se referia. Instintivamente, levou uma das mãos ao pescoço.

— Só você pode tirar essa corda — disse Antonio. — Só você pode voltar a respirar e retornar à sua vida.

Os olhos de Maria se encheram de lágrimas.

— Não será fácil — prosseguiu ele. — Não vou enganar você dizendo que, se voltar, amanhã tudo será maravilhoso. Os problemas que a trouxeram até aqui continuarão existindo. Você terá que enfrentá-los. Mas, antes de desistir, sempre existe alguma alternativa, ainda que, do fundo do poço, pareça impossível enxergá-la.

Antonio levou uma das mãos ao peito.

— Olhe para mim com os olhos do coração, Maria. Diante de você está alguém que sofreu muito depois de compreender o mal que causou. Cada vez que pensava em Tony e imaginava aquele menino se perguntando por que havia ficado sem pai, sentia como se algo me atravessasse por dentro.

A voz de Antonio começou a falhar.

— Eu já não posso mudar isso. Mas você pode impedir que nosso filho tenha de fazer a si mesmo uma pergunta ainda pior.

Maria compreendeu.

Antonio mal conseguiu pronunciar as palavras seguintes:

— Eu te imploro… não faça com que ele tenha de passar também pela sua ausência.

O silêncio caiu entre os dois. Maria permaneceu imóvel por um longo tempo, assimilando tudo o que acabara de ouvir.

Por fim, ergueu o olhar.

— Obrigada, Antonio. Você falou de coração. Acho que não poderia ter sido mais sincero.

Maria inspirou profundamente.

— E quero que saiba de uma coisa. Não guardo rancor de você.

Antonio abriu ligeiramente os olhos.

— Maria…

— Isso não significa que eu aprove o que você fez nem que tenha deixado de me doer. Mas não quero viver presa ao ódio.

O semblante de Antonio se desfez.

— Todos somos imperfeitos — continuou ela. — Talvez estejamos aqui justamente para aprender a superar nosso egoísmo e entender que nossa vida também afeta aqueles que estão ao nosso redor.

Maria sorriu levemente.

— Você já não é aquele Antonio que só pensava nos próprios interesses. Você mudou.

Ele baixou a cabeça.

— Dá para perceber que você trabalhou muito em si mesmo.

— Ainda tenho um longo caminho pela frente.

— Com certeza. Como todos nós.

Maria teve então uma sensação estranha.

— Acho que nosso encontro está chegando ao fim.

Antonio olhou para trás. Sua expressão mudou.

— Sim.

— O que foi?

— Ouvi meu nome.

— Estão chamando você?

— Acho que sim.

Antonio permaneceu alguns segundos escutando algo que Maria não conseguia perceber.

— Chegou a hora de voltar.

A mulher sentiu uma pontada inesperada. Depois de todas as recriminações, confissões e feridas abertas, a possibilidade de perdê-lo novamente provocou nela uma dor que não esperava.

— Quando me ofereceram a oportunidade de vir até aqui — prosseguiu Antonio —, eu não imaginava o alcance que esta conversa teria. Agora compreendo melhor. Eu precisava falar com você tanto quanto você precisava me ouvir.

Maria percebeu que as lágrimas voltavam a seus olhos.

— Foi bom ver você de novo, Antonio.

— Para mim também.

— Foi duro, mas acho que precisávamos passar por isso.

Antonio assentiu.

— Sempre vou levar você no meu coração — continuou Maria. — Você faz parte da minha vida e é o pai de Tony. Nada poderá mudar isso.

Por impulso, deu um pequeno passo em direção a ele. Parou. Sabia que não podia tocá-lo.

Durante alguns segundos, os dois se contemplaram em silêncio, separados apenas por uma distância que parecia infinitamente maior do que alguns centímetros.

Maria sorriu entre lágrimas.

— Eu sei que não posso abraçar nem beijar você…

Levou a mão aos lábios.

— Mas posso te dar este.

Mandou-lhe um beijo.

Antonio permaneceu imóvel.

Depois, com os olhos cheios de lágrimas, também levou os dedos aos lábios e repetiu exatamente o mesmo gesto.

Foi a última troca entre eles.

A figura de Antonio começou a perder consistência. Primeiro, o contorno de seus braços ficou mais tênue. Depois, seu rosto pareceu se diluir em uma luminosidade azulada. Ela quis dizer algo mais, mas já não conseguiu.

Alguns segundos depois, seu marido havia desaparecido por completo em plena madrugada. Maria permaneceu olhando para o lugar vazio. Depois, baixou a cabeça.

Pela primeira vez desde que Antonio havia aparecido, não sentiu raiva, nem vontade de fazer perguntas, nem necessidade de procurar culpados. Apenas uma tristeza imensa. E, misturada a ela, uma serenidade desconhecida.

Antonio havia partido outra vez, mas, desta vez, ela havia conseguido se despedir.

Continua…

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