Raúl soltou uma gargalhada enquanto fechava o canivete e o guardava novamente.
— Você vai ver, ela não dura nem um minuto com você. Depois você mesmo põe ela pra fora.
Tony não lhe deu atenção.
Maria apoiou uma mão no chão e começou a se levantar com dificuldade.
Sentia dor na lateral do corpo, mas já quase não percebia o incômodo.
Só conseguia olhar para aquele rosto.
Subiu lentamente os degraus.
A cada passo, a certeza se tornava mais insuportável.
Havia algo nos olhos do rapaz.
No formato do nariz.
Naquele gesto da boca.
Traços conhecidos que os anos haviam transformado, mas não apagado.
Ao entrar no cômodo, Tony se virou para ela.
— Sente-se. Não temos exatamente poltronas de Versalhes, mas a senhora vai ficar melhor aqui do que lá fora.
Maria não respondeu.
Observou-o com absoluta atenção.
Durante alguns segundos deixaram de existir a casa, os traficantes, o cheiro desagradável do lugar e até a dor que sentia no corpo.
Só existia aquele rosto diante dela.
Fechou os olhos.
Não podia ser.
Não queria que fosse.
Mas sabia.
A intuição chegou antes mesmo das palavras.
Um gosto amargo encheu sua boca.
Era Tony.
Seu Tony.
Aquele rapaz que ela havia levado pela mão até a escola.
O menino que Antonio acabara de lhe pedir que protegesse.
Seu filho.
Mas já não era o menino que ela conhecia.
Diante de Maria havia um jovem endurecido, que comandava um lugar onde se vendiam drogas.
Precisou fazer um esforço enorme para não desmoronar.
Ángel a havia advertido.
O fantasma do futuro.
Agora compreendia por quê.
Instintivamente, levou as mãos ao rosto, querendo tapar os olhos e fugir daquela imagem.
Mas se conteve.
Cerrou os punhos.
— Tenho que aguentar isso — disse para si mesma em voz baixa. — Tenho que saber o que aconteceu.
— A senhora disse alguma coisa? — perguntou Tony.
Maria negou rapidamente com a cabeça.
— Não.
O jovem apontou para uma cadeira.
— Então, sente-se.
Ela obedeceu.
— Aqui as coisas são simples — continuou ele. — As pessoas vêm, pedem o que precisam, a gente fecha o negócio e cada um segue sua vida. Ninguém fica muito tempo.
Maria o escutava sem conseguir desviar os olhos dele.
— Todo mundo tem seus problemas, não é? — acrescentou Tony.
Ela teve que conter as lágrimas.
Queria se levantar.
Abraçá-lo.
Perguntar o que havia acontecido com ele.
Dizer que era sua mãe.
Mas sabia que aquele rapaz não podia vê-la como tal.
Aquilo não era o presente.
Era uma possibilidade.
Um futuro que ela estava sendo obrigada a contemplar.
Tony franziu ligeiramente a testa.
— Então, senhora… o que está procurando?
Maria engoliu em seco.
Levou vários segundos para conseguir fazer as palavras saírem de sua boca.
— Sim… acho que você tem razão.
Sua voz tremeu.
— Pelo que estou vendo… aqui não precisa perguntar muita coisa.
Tony sorriu.
Maria, porém, sentiu algo se rasgar por dentro.
Havia chegado àquela casa acreditando que teria de enfrentar o perigo.
Agora compreendia que a verdadeira prova não eram as drogas, os insultos nem aqueles jovens.
A verdadeira prova estava sentada diante dela.
E tinha o rosto de seu filho.
Continua…
