Maria teve que conter as lágrimas. Antonio. O nome de seu pai. O menino que tantas vezes ela havia levado pela mão era agora aquele jovem sentado diante dela, falando tranquilamente sobre drogas e convivendo com traficantes.
— É como Pepe para José ou Paco para Francisco — continuou ele. — As pessoas abreviam os nomes porque é mais cômodo. A senhora também não descobriu a América.
Maria sorriu sem vontade.
— Não. Claro que não.
Houve uma pequena pausa. Ela sabia que estava se aproximando de uma pergunta perigosa.
— Posso te fazer uma pergunta um pouco pessoal?
Tony a olhou com curiosidade.
— Bom, já estamos conversando há alguns minutos. Além disso, a senhora me intriga.
— É mesmo?
— Muito.
Ele se acomodou melhor.
— E também não vou ficar falando de drogas vinte e quatro horas por dia. Seria bem chato.
Maria sentiu a boca secar.
— Quero te perguntar sobre sua mãe.
A expressão de Tony mudou ligeiramente. Não muito. Mas Maria percebeu.
— Minha mãe?
— Sim.
— O que a senhora quer saber?
A mulher juntou as mãos sobre as pernas para evitar que tremessem.
— Que lembranças você guarda dela?
Tony permaneceu calado por alguns segundos.
— Que pergunta…
— Desculpe. Se você não quiser responder…
— Não, tudo bem.
O jovem voltou a observá-la.
— Como a senhora não tem cara de policial e, além disso, fui com a sua cara, vou contar.
Maria prendeu a respiração.
— A verdade é que cada vez me lembro de menos coisas.
Ela sentiu um arrepio.
— Menos?
— Sim.
Tony deu de ombros.
— Acho que é normal. Os anos passam e a memória vai apagando os detalhes.
Maria sentiu uma pressão dolorosa apertar seu peito.
— Você não se lembra do rosto dela?
— Sim, claro. Ainda me lembro. Mas há coisas que estão começando a ficar meio apagadas.
Tony olhou para o lado, buscando na memória.
— A voz dela, por exemplo. Às vezes tento me lembrar de como era e tenho dificuldade.
Maria baixou a cabeça imediatamente. Não queria que ele visse seus olhos se enchendo de lágrimas.
— Também algumas situações — continuou Tony. — Coisas que fizemos juntos quando eu era pequeno. Sei que aconteceram, mas cada vez parecem mais distantes.
Maria apertou as mãos com força.
— E por que você acha que isso acontece?
Sua voz saiu mais fraca do que pretendia. Tony a olhou.
— Não sei. Porque faz muito tempo, suponho.
— Eu sou mais velha que você e ainda me lembro perfeitamente dos meus pais.
O jovem deixou escapar um leve sorriso.
— Esse é o seu caso. O meu foi diferente.
Maria sentiu que algo dentro dela a advertia para se preparar.
— Meu pai morreu quando eu era garoto.
Ela assentiu muito devagar.
— E depois minha mãe morreu.
Maria parou de respirar.
Durante alguns instantes, não ouviu mais nada. Nem os ruídos vindos de fora. Nem as vozes daqueles jovens. Nem sequer Tony. Apenas aquela frase. Minha mãe morreu.
— Quando? — conseguiu perguntar.
Tony fez um rápido cálculo mental.
— Há uns cinco anos.
O sangue pareceu desaparecer do rosto de Maria. Cinco anos. Exatamente o tempo que separava aquela cena do presente que ela havia abandonado.
— E… como ela morreu?
Tony hesitou.
— Tirou a própria vida. Devia estar muito mal.
Maria fechou os olhos.
— O que… o que aconteceu?
— Ela se enforcou.
A frase caiu sobre ela como um golpe físico. Por alguns segundos, achou que fosse desabar. Teve que cravar as unhas nas palmas das mãos para se lembrar de onde estava e por que havia chegado até ali.
Aquilo não havia acontecido. Ainda não. Era uma possibilidade. Um futuro.
Mas Tony falava da morte dela com a naturalidade de quem convivia com aquilo havia anos.
— Agora a senhora entende por que algumas coisas vão se apagando — acrescentou o jovem. — Entre uma coisa e outra, já faz muitos anos que vivo praticamente sozinho.
Maria sentiu que as lágrimas ameaçavam escapar.
— Sinto muito — conseguiu dizer.
Tony deu de ombros.
— É isso. A vida segue.
Aquelas três palavras lhe causaram ainda mais dor. A vida segue. Antonio havia dito aquilo de outra maneira. Ángel também. E agora era seu próprio filho quem as pronunciava, num futuro em que ela havia decidido não continuar.
Maria olhou para ele.
— Então você deve ter uns vinte anos.
— Exatamente.
Tony sorriu levemente.
— Suponho que tenha deduzido pela minha aparência.
Maria negou lentamente com a cabeça.
— Não.
O jovem franziu a testa.
— Não?
Ela teve que fazer um esforço imenso para se conter.
— Digamos que… fiz as minhas contas.
Tony aceitou a explicação. Maria, porém, já não conseguia pensar em outra coisa. Se aquela cena algum dia se tornasse realidade, seu filho não apenas perderia a mãe. Pouco a pouco, também começaria a esquecê-la.
Desde que aquela terceira prova tinha começado, Maria compreendeu que a morte que escolhera para pôr fim ao próprio sofrimento poderia se prolongar por anos na memória de quem ela mais amava.
Continua…
