AS TRÊS VIDAS DE MARIA (27) O lugar onde tudo mudou

De repente, Maria ouviu uma voz que lhe gelou o sangue.

— Bem… Servando, meu amigo, a gente se vê por aí. Que noite maravilhosa! Quanto tempo sem nos encontrarmos! Então, companheiro, até a próxima.

O homem falava com a voz pastosa enquanto encerrava a chamada no celular. Não era preciso observá-lo por muito tempo para perceber que havia bebido além da conta.

Maria sentiu um arrepio.

— Meu Deus… Não pode ser.

Levou as duas mãos à boca.

— É Antonio!

Impulsionada pela emoção, apressou o passo até se aproximar do antigo marido. No entanto, quando apenas alguns metros os separavam, sentiu uma força invisível segurando-a pelas costas. Era uma pressão firme, impossível de vencer, que a impedia de avançar.

— Maldição! O que está acontecendo comigo? Por que não consigo chegar até ele?

Lutou desesperadamente.

— Antonio, espere! Espere um instante! Não entre no táxi! Por favor, não dê a partida. Preciso falar com você.

Maria se debatia contra aquela energia desconhecida, como se tentasse se libertar de braços invisíveis que a aprisionavam. Mas todos os seus esforços foram inúteis.

Por fim, exausta diante daquela resistência impossível, deixou de lutar.

Permaneceu imóvel, a poucos metros do táxi e de Antonio, presa a uma impotência insuportável. Gritava o nome dele sem parar, mas ele não parecia ouvi-la. Era como se suas palavras não conseguissem atravessar a distância que os separava.

Então ouviu o motor do veículo.

Antonio havia dado a partida.

Maria prendeu a respiração. No entanto, o carro não se moveu. O tempo parecia transcorrer de maneira estranha, como se aquela cena obedecesse a regras diferentes.

Alguns segundos depois, Antonio desligou o motor e abriu a porta do veículo.

O que aconteceu em seguida deixou Maria sem fôlego.

Um carro surgiu na estrada em alta velocidade. Veio por trás sem diminuir a marcha, sem fazer a menor tentativa de frear. O impacto foi brutal. Antonio foi arremessado e caiu imóvel sobre o asfalto, alguns metros adiante.

Maria ficou paralisada.

Por alguns instantes, não conseguiu reagir. Depois, como se a realidade tivesse desabado de uma só vez sobre ela, rompeu em prantos, tomada por uma angústia que parecia nascer do mais profundo de sua alma.

— Meu Deus… Agora compreendo tudo.

A voz lhe tremia.

— Esta é a minha segunda prova. Trouxeram-me até aqui, a este lugar horrível, ao ponto exato onde o meu Antonio morreu.

Olhou ao redor, ainda abalada.

— A polícia me disse que ele havia sido atropelado nesta estrada, entre as sombras da madrugada. Um fim absurdo, cruel… provocado por alguém que certamente dirigia fora de si, um bêbado ou alguém completamente chapado de cocaína.

Cerrou os dentes.

— Nunca souberam me dizer se foi um acidente ou se aquele motorista agiu de propósito. Nunca encontraram o responsável. Esta área ficava fora do alcance das câmeras.

Atormentada pelo sofrimento, continuou pensando em voz alta.

— Também me disseram que passou bastante tempo até alguém encontrar o corpo dele. Já estava amanhecendo. Foi um hóspede que saía do hotel quem chamou o serviço de emergência.

A voz lhe falhou.

— Esse tempo decidiu tudo. Quando a ambulância e os socorristas chegaram, já não puderam fazer nada, apenas constatar a morte.

Maria ficou pensativa por um instante.

— É tão diferente quando nos contam… e quando vemos com os próprios olhos.

Enojada com o que acabara de presenciar, mergulhou em profunda confusão. Tentando encontrar algum sentido naquela cena, afastou-se alguns passos e acabou se sentando na grama do jardim que circundava o Hotel Ícaro.

Recolheu as pernas, cruzou-as e abaixou a cabeça até encostá-la nos joelhos.

Perguntou-se repetidas vezes por que a haviam exposto a uma sequência tão cruel. Não encontrava resposta. Nem sequer conseguia raciocinar com clareza. Estava bloqueada.

Do mais profundo de seu ser, começou a crescer uma raiva intensa, dirigida sobretudo contra Ángel, aquele espírito que a levara até o momento mais doloroso de sua existência, aquele instante em que, aos trinta e três anos, ficara viúva e tivera a vida partida em duas.

Perdeu a noção do tempo.

A noite, o jardim, o hotel e a estrada pareceram dissolver-se num silêncio pesado. Maria permaneceu ali, como que entorpecida, incapaz de pensar ou sentir qualquer coisa além de uma mistura de dor, cansaço e ressentimento.

Mas as surpresas ainda não haviam terminado.

De repente, uma voz familiar surgiu em meio à escuridão.

— Maria… Maria, por favor, acorde.

A mulher não se moveu.

— Acorde, eu lhe peço.

Ainda abalada pela visão do acidente, Maria começou a reagir pouco a pouco. Ergueu a cabeça com dificuldade, como se regressasse de um sonho cruel demais.

Quando virou o corpo e viu quem estava ali, o espanto a deixou sem palavras.

— Mas… como isso é possível?

Ergueu-se apenas um pouco, trêmula.

— Antonio… o que está fazendo aqui? Acabei de vê-lo morrer.

A confusão a dominou.

— Isto só pode ser uma alucinação. Uma invenção da minha mente para que eu não desmorone. Há pouco eu o vi estendido na estrada…

— Não, Maria — respondeu ele com uma ternura que ela reconheceu de imediato. — Não é uma alucinação. Sou eu. O seu Antonio.

Ela balançou a cabeça, incapaz de aceitar o que via.

— Não me torture mais, por favor. Não sei o que estou fazendo aqui nem por que me obrigam a sofrer desta maneira. Já sofri o bastante naquela manhã, quando me acordaram com a notícia. Por que tenho de reviver este pesadelo?

Antonio a contemplou com uma serenidade estranha, diferente daquela de que ela se lembrava.

— Quem me dera poder explicar tudo em detalhes, meu amor. Mas deve haver uma causa. E também um propósito.

Maria respirava com dificuldade.

— Um propósito? Nisso?

— Sim. Durante todo este tempo, aprendi que nada acontece por acaso. Nem mesmo aquilo que nos parece mais incompreensível. Tudo tem um sentido, embora a princípio não consigamos enxergá-lo.

Ao ouvir aquelas palavras, Maria sentiu que algo dentro dela se quebrava e se recompunha ao mesmo tempo.

Levantou-se do chão reunindo todas as forças e, movida por um impulso incontível, lançou-se na direção do marido com a intenção de abraçá-lo, de tocá-lo, de cobri-lo de beijos e recuperar, num único instante, os cinco anos de ausência que a haviam devastado.

De repente…

Continua…

Deja una respuesta

Tu dirección de correo electrónico no será publicada. Los campos obligatorios están marcados con *

Entrada siguiente

LAS TRES VIDAS DE MARÍA (28) El abrazo imposible

Sáb Jul 18 , 2026
—No, no lo hagas —gritó Antonio con todas sus fuerzas—. No lo intentes, María. No te va a gustar. Pero la advertencia llegó demasiado tarde. María ya se había inclinado hacia delante, con los brazos extendidos y el cuerpo entero sometido a una voluntad desesperada. —¿Qué dices? Quiero… llegar… hasta […]

Puede que te guste