AS TRÊS VIDAS DE MARIA (10) «Não vou voltar»

— Em primeiro lugar — começou a figura, com voz serena —, devo lhe dizer que você ainda não está morta, embora já estivesse prestes a comemorar. Ainda dá tempo de voltar. Mas disso falaremos mais adiante.

Fez uma breve pausa.

— Em segundo lugar, aquele espírito protetor a que você se referiu… está esgotado. E eu não falo de um cansaço físico. Ele tentou, uma e outra vez, afastá-la desse impulso autodestrutivo, a ponto de consumir as próprias energias.

Maria abriu os olhos, incrédula. Não conseguia assimilar o que estava ouvindo.

— Por isso eu estou aqui — continuou ele. — Para completar o trabalho dele. No nosso âmbito, nada é deixado ao acaso. Quando alguém não consegue cumprir sua função, outro ocupa o seu lugar. Então… aqui estou.

Ele a observou com atenção.

— Você entende?

Maria hesitou antes de responder.

— Então… — murmurou, tímida — eu falhei com o meu anjo da guarda…

A figura negou de leve.

— Digamos que, ao ver para onde os seus pensamentos estavam indo hoje de manhã, ele decidiu me pedir ajuda. Sabia que essa possibilidade existia… e a usou. Todas aquelas dúvidas que você sentia não eram por acaso. Eram o reflexo do esforço dele para impedir você. Mas a intervenção dele tinha um limite: o seu livre-arbítrio.

Maria baixou o olhar.

— Ele deve estar muito decepcionado comigo… — sussurrou. — Agora que penso… estou me sentindo mal.

— Ele tinha esperança de convencê-la — prosseguiu a figura —, de lhe oferecer alternativas, de empurrá-la para outro rumo. Mas a sua determinação era férrea. Nem mesmo ele, com toda a vontade, pôde ir além. E quando a viu colocar o cadarço no pescoço e se deixar cair… entendeu que a situação havia ultrapassado as capacidades dele.

A voz dele ficou um pouco mais grave.

— Há muita coisa em jogo, Maria.

A mulher, profundamente abalada, cobriu o rosto com as duas mãos. As lágrimas começaram a escorrer entre os dedos.

O homem esperou alguns segundos antes de continuar.

— Quero que você entenda uma coisa com toda clareza — acrescentou, por fim. — Eu não estou aqui para impor nada. Eu não posso alterar as leis que regem isto… nem a sua liberdade de escolher. Não me cabe.

Inclinou-se levemente na direção dela.

— Mas antes de eu ir embora, antes de deixar você a sós com a sua escolha… preciso lhe propor um desafio. Uma última prova.

Maria ergueu a cabeça, surpresa.

Havia algo naquela presença… uma mistura de autoridade e serenidade que impunha respeito.

— Agora eu entendo — disse, deixando-se levar pela intuição. — Você é um anjo… mas não um qualquer. Está acima. Tem mais conhecimento, mais autoridade. É por isso que você está aqui. A sua missão é ajudar quando tudo se complica.

A figura esboçou um leve sorriso.

— É curioso o seu empenho em me encaixar numa categoria concreta, embora eu entenda. Você não esperava por isso… e precisa dar forma, identificar.

De repente, o semblante de Maria mudou. Uma nova inquietação a atravessou.

— Um momento… — disse, tensa. — Anjo, ou o que quer que você seja… você não veio para me devolver à vida, veio?

Os olhos dela se endureceram.

— Porque, se essa for a sua intenção, eu já aviso: eu vou fazer de novo. Vou me enforcar quantas vezes for preciso.

O tom dela ficou firme, quase desafiador.

— Você fala de liberdade, não fala? Então você não vai decidir por mim. Eu cheguei até aqui… e não vou voltar atrás. Se for preciso, eu exploro este mundo novo por conta própria. Não preciso de ajuda. Eu me arrisco sozinha.

Respirou com força.

— Me custou demais chegar a este ponto para desistir agora.

Olhou para ele, sem desviar.

— Eu não vou voltar.

O homem ergueu a mão num gesto conciliador, mas Maria continuou, arrastada pelo próprio ímpeto.

— Responda uma coisa! — exclamou. — Jura.

— Calma — respondeu ele, sereno. — Eu estou ouvindo.

— Você tem poder para me obrigar a voltar para o meu corpo?

O silêncio foi breve, mas denso.

— Não — respondeu ele, enfim. — Eu não tenho. O seu livre-arbítrio está acima de qualquer intervenção.

Maria soltou um suspiro fundo.

— Ufa… — murmurou. — Você tirou um peso de cima de mim.

Ela relaxou um pouco.

— Eu acredito em você.

Observou-o com mais atenção.

— Mas eu já cansei de falar com alguém sem nome. Eu quero saber quem você é. Como você se chama?

O homem inclinou a cabeça.

— Essa é uma boa pergunta. Mas veja… as pessoas me conhecem de muitas formas diferentes.

Fez uma pausa.

— Então vamos fazer assim: escolha você como quer me chamar.

Maria franziu a testa.

— Escolher eu?… Não estou com muita vontade de pensar agora…

Ficou alguns segundos em silêncio. E então, de repente, tudo se encaixou.

— Já sei — disse, apontando de leve para a figura. — Quando eu vi você pela primeira vez, eu pensei num anjo. Não vou complicar. De agora em diante, eu vou te chamar assim: «Ángel».

Olhou para ele, esperando a reação.

— Se você não se importar.

— Acho adequado — respondeu ele. — É a sua escolha.

Maria esboçou um leve sorriso.

— Você tem cara de mensageiro… de alguém que traz boas notícias. Com esse terno tão… limpo, tão perfeito, tão bem passado. Sim, acho que acertei.

O homem a observou com uma mistura de curiosidade e paciência.

— Espero que essa imaginação lhe seja útil para o que vem.

Maria arqueou uma sobrancelha.

— É o que eu espero. E esse desafio de que você falou?

A expressão dela voltou a se tensionar.

— Quero saber do que se trata.

Ángel assentiu de leve.

— Está bem. Mas antes de começar… preciso esclarecer uma coisa importante.

Continua…

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