Após um breve suspiro, a idosa falou com voz serena:
— Posso lhe confessar um segredo?
— Claro, senhora. Faltava mais.
— Olhe… se eu ainda estou viva nesta cadeira de rodas, em grande parte é graças a você.
Maria arregalou os olhos, surpresa.
— O que a senhora está dizendo, dona Ana? Se eu for sincera, este trabalho chegou a me deprimir, sobretudo nos últimos meses. A senhora não imagina quanta energia ele consome. Eu chegava em casa esgotada, sem vontade de nada.
— Eu não duvido, minha querida, mas insisto. Sem a sua gentileza, sem os seus cuidados e sem a sua paciência, eu teria fechado os olhos há muito tempo. Nunca vou conseguir agradecer o suficiente os detalhes que você teve comigo, nem a atenção que me dedicava.
Maria baixou o olhar.
— Com a senhora foi diferente desde o começo. Acho que a gente se deu bem logo no primeiro momento.
— Eu diria que foi mais do que isso. A minha intuição me dizia que nós duas carregávamos histórias tristes e que, de algum modo, isso nos aproximou.
— Eu agradeço muito o que a senhora está me dizendo porque, sinceramente, eu sempre tive a sensação de que o meu trabalho passava despercebido.
A idosa negou devagar com a cabeça.
— Então você não soube olhar para dentro. Às vezes a gente é incapaz de enxergar a verdadeira importância do que faz pelos outros.
Aquelas palavras pareceram encontrar um lugar dentro de Maria.
Ela fechou os olhos por alguns segundos e ficou pensativa.
— Agora que penso… talvez a senhora tenha razão. A gente é imperfeito e erra o tempo todo. A verdade é que eu estou perdida há muito tempo.
Depois daquela reflexão, algo voltou a despertar nela. Os olhos recuperaram um brilho de curiosidade.
— Por favor, Ana, posso lhe fazer uma pergunta?
— Claro, mas procure que seja fácil.
— Vou tentar — respondeu Maria, com um sorriso rápido. — É importante pra mim. A senhora sabe quanto tempo passou desde que eu morri?
A idosa soltou uma risadinha.
— Eu disse que fosse fácil. Eu não faço ideia. A minha memória funciona muito melhor para lembranças antigas do que para as coisas recentes.
— Puxa… que contrariedade.
— Espere um momento — disse de repente.
Então ela olhou para uma funcionária que passava perto.
— Macarena, minha filha, venha aqui um instante.
A empregada se aproximou.
— Pois não, senhora?
— Você se lembra de quando a sua colega Maria morreu? Aquilo foi um golpe terrível.
Macarena pareceu pensar por alguns segundos.
— E por que essa pergunta agora?
A idosa sorriu.
— Curiosidade.
— Bem… imagino que seja porque vocês se davam muito bem. Eu diria que foi há algumas semanas, talvez um mês. Não me lembro da data exata. O que eu sei é que ela deixou todo mundo arrasado. Muitas vezes eu me perguntei o que ela carregava por dentro para acabar se enforcando. Eu nunca consegui entender.
— Obrigada, minha filha. Você me ajudou muito.
Quando a funcionária se afastou, dona Ana voltou a olhar para Maria.
— Bem, aí está a sua resposta. Mais ou menos faz um mês que você morreu.
Maria ficou imóvel.
— O que foi? Eu te vejo confusa.
Maria tentou organizar os pensamentos.
— Eu não sei… tudo é tão estranho.
— Então pare de fazer contas. Não vai servir de nada. É melhor aproveitar para me contar algumas coisas.
A idosa lhe ofereceu um sorriso cálido.
— Vamos, mocinha. Eu estou pronta para te ouvir. Considere que esta é a sua oportunidade de desabafar.
Maria levou as mãos ao rosto.
Mesmo ali, naquela situação tão extraordinária, ela continuava sentindo a ansiedade de sempre.
Quando conseguiu se acalmar um pouco, abriu os olhos.
— A verdade é que eu nem sei por onde começar.
As lágrimas começaram a aparecer nas bochechas.
— O meu caso foi uma soma de circunstâncias. Como dizia a minha mãe: “juntou a fome com a vontade de comer”.
— Eu não duvido. Mas deve ter havido algo que acabou te empurrando para esse desejo de desaparecer.
Maria assentiu devagar.
— Por um lado, a morte do meu marido. O atropelamento dele me destruiu. Eu tinha só trinta e três anos quando aconteceu e, sinceramente, ninguém está preparado para ficar viúva nessa idade.
— Nem você, nem ninguém, minha querida.
— Exato. Tony era só uma criança quando aconteceu. Agora ele tem quinze anos e atravessa essa fase tão complicada da adolescência. Quanto mais eu tentava ficar em cima dele, menos forças eu tinha para conseguir.
Ela ficou em silêncio por alguns instantes.
— É uma idade perigosa. Eu tinha medo de errar, de não saber orientá-lo. E depois tinha o trabalho.
Olhou ao redor, contemplando o lugar onde passara tantos anos.
— Horas demais aqui dentro. Plantões intermináveis para ganhar um pouco mais de dinheiro e conseguir sustentar a casa. Sempre falta dinheiro.
Respirou fundo.
— É verdade que a senhora era diferente. Com a senhora eu conseguia conversar. Mas o resto… muitos só reclamavam ou exigiam cada vez mais. E também os familiares deles. Com os meus colegas eu também não consegui me integrar muito, salvo uma ou outra exceção.
Maria baixou a cabeça.
— Acho que os meus próprios problemas me impediam de me abrir para os outros. Tudo ia se acumulando. Uma preocupação atrás da outra. Um peso em cima do outro.
A voz dela ficou mais baixa.
— E, no fim, esse peso acabou me levando até a beira do precipício.
As duas ficaram em silêncio por alguns segundos.
Por fim, Maria voltou a falar.
— Dona Ana… como eu gostaria de ter tido esta conversa com a senhora há mais tempo…
A idosa segurou a mão dela com ternura.
— Nunca é tarde para ouvir nem para compreender, minha filha.
…continua…
