Por volta das três da tarde, Maria começou a perceber com nitidez os efeitos do fármaco que havia ingerido.
Com o cadarço amarrado ao redor do pescoço, a ansiedade que a dominara durante toda a manhã se dissolveu por completo. Seu corpo foi relaxando, cedendo pouco a pouco a uma sensação estranha, como se um sono profundo a envolvesse por dentro.
Os segundos se diluíam. A consciência se apagava. Ela sequer percebeu como a falta de oxigênio ia, lentamente, fechando a passagem para a vida.
No fundo, era isso o que ela buscara: um abandono suave, quase doce, da dimensão física. E estava conseguindo.
Mas então… algo aconteceu.
Num instante impossível de precisar, no meio daquela deriva silenciosa, ela ouviu um ruído junto ao ouvido. Foi o bastante para arrancá-la, por um breve momento, daquele estado. Abriu os olhos. E o que viu a deixou paralisada.
«Mas… sou eu…»
Ali estava. O próprio corpo. A uns dois metros de distância.
A impressão foi tão intensa que, sem entender como, sua consciência pareceu se deslocar, abandonar de vez a antiga posição e se instalar naquele novo ponto de observação.
Então ela viu com clareza.
Seu corpo pendia, inclinado para a frente, com as pernas levemente flexionadas, sustentado por aquele cadarço branco que lhe rodeava o pescoço. O rosto começava a mudar de cor, adquirindo um tom violáceo — estranho, alheio.
Um arrepio a percorreu.
«Então… aconteceu.»
Surpreendeu-a a calma com que pensou aquilo. Como se, em vez de horror, sentisse uma espécie de alívio.
«Funcionou…»
Ela chegou a sentir que respirava com leveza, como alguém que acaba de se livrar de um peso pesado demais.
Mas aquele bem-estar durou pouco. Algo não se encaixava.
«Espera…»
Olhou de novo para o corpo.
«Eu não gosto disso…»
Havia algo profundamente inquietante naquela imagem. Algo que lhe provocava repulsa — até medo.
«E se…»
A ideia a sobressaltou.
«E se ele se mexe de novo? E se acorda?»
Negou de imediato.
«Não… não. Não se mexe. Pronto. Acabou.»
Ficou em silêncio.
«Trinta e oito anos… e acabou.»
A frase ficou suspensa na mente. Ela olhou ao redor. Ainda estava em casa. Tudo era igual… e, no entanto, nada era.
«Que estranho…»
Avançou alguns passos, quase com cautela.
«Eu pensei que o além seria… não sei… outra coisa. Uma paisagem diferente, um lugar desconhecido…»
Parou no corredor.
«O que está acontecendo?»
Levou as mãos à testa, confusa.
«Meu corpo já não está… mas eu continuo pensando. Continuo sentindo…»
Uma revelação começou a se abrir caminho.
«Então… é verdade.»
Uma emoção leve a atravessou.
«A vida continua.»
Seus lábios se entreabriram, como se quisesse saborear aquela certeza.
«Graças a Deus…»
A sensação de alívio cresceu.
«Enfim eu me livrei desse corpo…»
Olhou para as próprias mãos.
«Era como uma prisão. Uma estrutura que me limitava… que só me trazia problemas, sofrimento.»
Mas a confusão não se dissipava.
«Estou… estranha.»
Levou de novo a mão à cabeça.
«Deve ser isso… a mudança, a transição para um estado pós-morte.»
Olhou ao redor, desorientada.
«Eu não sei para onde ir. Nem o que fazer…»
Mas uma ideia começou a se impor.
«Bem… seja lá o que for… não pode ser pior do que antes.»
Respirou fundo.
«Eu não vou ficar aqui.»
Decidida, deu um passo rumo ao corredor.
«Vou explorar…»
E então…
— Não tão depressa, Maria!
A voz soou com clareza às suas costas. Ela ficou completamente imóvel. Um arrepio lhe atravessou o corpo — ou o que quer que fosse aquilo que agora ela era.
Virou-se de supetão.
— Hã?! Que susto! — exclamou. — Como assim? Que brincadeira é essa?
— Não é brincadeira nenhuma — respondeu uma voz masculina, firme, mas tranquila. — E eu não estou aqui para jogar.
Maria semicerrrou os olhos. Uma luz intensa a obrigou a desviar o olhar. Piscou várias vezes, tentando se acostumar. Diante dela, uma figura. Elegante, serena. Quase irreal.
— Meu Deus… — sussurrou. — Quem é você?
Mas não esperou a resposta. A mente de Maria se adiantou.
— Ah… já entendi — disse, numa mistura de nervosismo e convicção. — Claro… minha mãe me falava disso quando eu era pequena…
Levou a mão ao peito.
— Você é… meu anjo da guarda.
A expressão dela se iluminou.
— Sim… faz sentido. Deus viu o meu sofrimento… e te mandou para me buscar.
A figura não respondeu de imediato. Observava-a com atenção.
— Agora está claro — continuou ela, cada vez mais segura. — Você vai me pegar pela mão… e me levar para um lugar doce, tranquilo. Vai ter música… tudo vai ser leve… eu vou até poder voar…
O homem de luz arregalou levemente os olhos, surpreso com aquela cascata de suposições.
— Parece que a sua imaginação está funcionando a todo vapor — disse, com uma ironia discreta.
Maria franziu a testa.
— Hã? Não é assim?
— Receio que não — respondeu, com calma. — As coisas não são exatamente como você descreve.
O desconcerto voltou ao rosto dela.
— Não… não me diga isso — murmurou. — Minha mãe…
— Sua mãe falava com você como com uma criança — interrompeu suavemente. — E você mesma acabou de dizer isso.
Maria respirou, inquieta.
— Você está me deixando muito nervosa…
O homem inclinou levemente a cabeça.
— Eu entendo. É normal.
Fez uma breve pausa.
— Que tal irmos passo a passo?
Maria hesitou por um instante. Depois assentiu, ainda confusa.
— Sim… sim. Está bem. Você que manda.
Continua…
