AS TRÊS VIDAS DE MARIA (59) Quem resiste, vence

Depois de um breve silêncio, Maria reuniu coragem para continuar.

— Pois é, mas veja, dona Merche… Minha amiga me contou que a mãe dela também tinha morrido depois de enfrentar um câncer muito agressivo. Além disso, havia casos de depressão na família e, anos mais tarde, ela perdeu o marido daquela maneira tão terrível. Com tudo isso nas costas, consigo entender que tenha chegado um momento em que ela não aguentasse mais.

Merche a observou sem demonstrar muita compaixão.

— Pois é. E daí?

A resposta deixou Maria desconcertada.

— Como assim, e daí?

— Todo mundo tem a sua história.

Merche abriu as mãos.

— Olhe para mim. Também estou sozinha. Minha filha mais velha já fez trinta anos, é casada e não parece ter a menor intenção de me fazer avó. A senhora sabe como os jovens estão hoje em dia com essas coisas. E meu filho trabalha como representante comercial; viaja tanto que quase não o vejo.

Maria assentiu devagar.

— Entendo.

— Então também não estou exatamente pulando de alegria.

A expressão da vizinha se endureceu.

— Mas o que eu deveria fazer? Tomar um frasco de comprimidos e me deitar esperando não acordar? Subir até o terraço do prédio e me jogar lá de cima?

Maria sentiu um arrepio.

— Não, claro.

— Pois então.

Merche ergueu ligeiramente o queixo.

— Não vou fazer isso, não. Dias melhores virão. A vida tem fases boas e ruins, e ninguém vai me obrigar a abrir mão dela só porque agora estou sozinha.

Maria baixou o olhar.

Aquelas palavras doíam justamente porque começavam a lhe parecer razoáveis demais.

— Já vi que a senhora não é a favor de procurar… uma saída rápida.

— De jeito nenhum.

Merche soltou um resmungo.

— Foi por isso que antes falei da covardia de Maria. Com todo respeito à memória dela.

Maria apertou os lábios. Era difícil ouvir aquela palavra se referindo a ela mesma.

— A senhora não conhece o ditado?

— Qual? Existem tantos…

— “Quem resiste, vence”.

Maria ficou pensativa.

— É verdade. Embora existam situações tão difíceis que uma pessoa pode chegar a se sentir completamente impotente.

— Não digo que não.

Pela primeira vez, Merche adotou um tom um pouco mais moderado.

— Há baques terríveis. Doenças, perdas, problemas familiares… cada um sabe o peso que carrega… mas ir embora para sempre não resolve nada.

Maria sentiu necessidade de responder:

— Há momentos em que quem está sofrendo pode se convencer de que já não existe nenhuma alternativa.

— Pois é justamente nessa hora que é preciso pedir ajuda. A um médico, a um amigo, a quem for. Mas, depois que a pessoa vai embora, não tem mais volta.

Maria levantou os olhos.

— Nem mesmo se alguém lhe garantisse que a senhora tem uma doença terminal?

A vizinha pensou por alguns segundos.

— Mesmo assim, eu teria muita dificuldade em fazer isso. Os médicos também erram. Enquanto ainda houver um dia pela frente, eu tentaria vivê-lo.

Maria ficou em silêncio. Um pensamento lhe veio imediatamente à mente. Ela ainda tinha aquele dia. Talvez mais de um.

Merche suspirou.

— Enfim. É assim que eu vejo as coisas.

Maria olhou para a fachada do prédio. Mais uma vez, viu diante de si aquela varanda que agora pertencia a outras pessoas. Depois se lembrou de Tony.

— Dona Merche…

— Sim?

— A senhora realmente não sabe nada sobre o filho de Maria?

A vizinha franziu ligeiramente a testa.

— Tony?

O coração de Maria deu um salto.

— Sim. Agora ele deve estar com uns vinte anos.

Merche negou devagar com a cabeça.

— O que aconteceu com aquele menino foi uma pena.

Maria prendeu a respiração.

— Por quê?

— Porque ficar sem o pai já foi duro. Mas ficar também sem a mãe aos quinze anos… Isso deixa qualquer um sem rumo.

Maria sentiu as palavras se cravarem dentro dela.

— A senhora chegou a saber o que aconteceu com ele?

— Ouvi alguma coisa. Mas também não quero falar sem saber direito.

— Conte o que a senhora se lembrar.

A mulher ficou pensativa.

— Acho que, no começo, algum parente ficou responsável por ele.

Maria assentiu devagar.

— Depois as coisas se complicaram. E, se não me engano, ele acabou em um centro socioeducativo.

Maria sentiu uma pressão dolorosa voltar a se instalar em seu peito.

— Então ele realmente ficou muito sozinho. Isso é o pior que pode acontecer com um adolescente.

Maria não respondeu. E, pela primeira vez, compreendeu que talvez a verdadeira tragédia não tivesse começado com a morte de Antonio.

Talvez tivesse começado quando Tony também perdeu a única pessoa que ainda podia ampará-lo.

Continua…

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