— Desculpe insistir — disse Maria, depois de reunir forças. — Como era sua mãe antes de acontecer aquela tragédia?
Tony desviou o olhar.
— Na verdade, isso já importa pouco, não acha?
Maria sentiu algo se contrair dentro dela.
— Não é agradável lembrar de alguém que acabou fazendo uma barbaridade dessas.
A palavra atingiu Maria como um golpe. Tony continuou sem perceber:
— Acho que ela não pensou muito no filho. Eu era tudo o que ela tinha.
Maria precisou apertar os lábios.
— Você acha que ela não pensou em você?
— Se tivesse pensado de verdade em mim, não teria feito aquilo. Para mim, foi uma irresponsabilidade enorme.
Maria baixou os olhos para o chão. Durante alguns segundos, precisou se concentrar apenas em respirar.
Era exatamente aquilo que Ángel havia querido lhe mostrar. Até então, ela havia contemplado sua decisão a partir da própria dor. Agora a via pelos olhos de Tony.
— Entendo — conseguiu dizer. — Pela sua expressão, dá para perceber que isso ainda dói.
Tony deu de ombros, como se quisesse minimizar a importância daquilo. Maria decidiu mudar um pouco o rumo da conversa.
— E seu pai? Ele não pôde cuidar de você? Você devia ter uns quinze anos quando sua mãe morreu.
Tony a olhou com desconfiança.
— Olha, senhora… a senhora não é da assistência social, é?
Maria arregalou os olhos, surpresa.
— Eu?
— A senhora faz perguntas demais, e todas vão na mesma direção.
Finalmente surgiu um sorriso no rosto do rapaz.
— É que a senhora me pegou num dia bom. E, não sei por quê, também não me incomoda conversar com alguém que não me conhece.
— Garanto que não trabalho para nenhum órgão público.
— Nem para a prefeitura?
— Nem para a prefeitura, nem para ninguém.
Tony a observou durante alguns segundos.
— Espero que isso não seja um daqueles experimentos sociais e que tenham me escolhido como cobaia.
Maria conseguiu sorrir.
— Não. Nada disso. Só peço um pouco de paciência. Sei que estou abusando do seu tempo.
Tony inclinou ligeiramente a cabeça.
— E por que a senhora se interessa tanto pela minha vida?
A pergunta surpreendeu Maria. Ela poderia lhe dar cem respostas, mas nenhuma delas era possível.
— Digamos que… você está me fazendo o maior favor da minha vida.
O rapaz soltou uma breve gargalhada.
— Isso, sim, parece misterioso.
Maria sorriu com tristeza.
— Eu sei.
Tony se recostou no assento.
— Quem diria que uma mulher entraria nesta casa caindo aos pedaços, onde metade do bairro sabe o que se vende, para me fazer uma entrevista.
Olhou em volta com ironia.
— E justo comigo, que também não sou nenhum exemplo para a sociedade.
— Talvez você tenha mais coisas para contar do que imagina.
Tony ficou pensativo.
— Pode ser.
Depois apontou para ela.
— Bom. Já que começamos o interrogatório, continue.
Maria respirou fundo.
— Você estava falando do seu pai.
— Sim. Definitivamente, eu tive bastante azar.
Maria permaneceu em silêncio.
— Meu pai morreu quando eu era um moleque. Devia ter uns dez anos.
— Ele foi atropelado.
Tony levantou a cabeça.
— Como a senhora sabe disso?
Maria sentiu o coração parar. Havia falado depressa demais.
— Acho que… você me contou antes.
O jovem franziu a testa por um instante e depois assentiu.
— Pode ser. Já nem me lembro de tudo o que estou contando para a senhora.
Maria respirou discretamente, aliviada.
— O fato é que ele morreu — prosseguiu Tony. — E, cinco anos depois, minha mãe se enforcou.
Ficou em silêncio.
— Então, como a senhora vê, aos quinze anos fiquei completamente sozinho.
Maria sentiu as lágrimas voltarem aos olhos. Dessa vez, precisou desviar o rosto. Tony pareceu não perceber.
— Ufa…
Passou a mão pelos cabelos.
— Pelo visto, eu estava mesmo precisando botar para fora toda essa merda que carrego aqui dentro.
Maria voltou a olhar para ele.
— Às vezes, faz bem falar.
— Sim. Principalmente com alguém que não conhece a sua vida e que provavelmente você nunca mais vai ver.
Aquela frase lhe causou uma dor quase insuportável.
Tony continuou:
— Há coisas que a gente guarda durante anos em algum canto e acaba se acostumando a carregá-las.
Maria pensou imediatamente em si mesma. Em Antonio. Em dona Ana. Em tudo o que havia acontecido durante aquela experiência.
— Até que ficam pesadas demais — murmurou.
Tony olhou para ela.
— Exatamente.
Por alguns instantes, criou-se entre os dois uma intimidade estranha. Uma mãe conversava com o filho. Mas só ela sabia disso.
Maria se inclinou ligeiramente em sua direção.
— Tony, quando você perdeu seus pais… não havia ninguém que pudesse cuidar de você?
O rapaz deixou de sorrir.
— Parentes, a senhora quer dizer?
— Família, amigos… alguém. Você ainda era menor de idade.
Tony olhou para a janela.
— Olha, apesar de tudo, não guardo rancor de ninguém.
Maria percebeu imediatamente que aquela resposta escondia alguma coisa.
— Rancor? É uma palavra muito forte.
— O que aconteceu comigo também foi forte.
Tony apertou os lábios. Maria percebeu que acabara de abrir uma porta que o rapaz mantinha fechada havia muito tempo.
— O que realmente aconteceu depois que você ficou sozinho?
Ele demorou a responder. Sua expressão perdeu toda a ironia.
— Difícil foi ficar órfão em plena adolescência. Mas o pior veio depois.
Maria sentiu um arrepio. Não disse nada. Esperou.
Pela primeira vez desde que entrara naquela casa, temeu mais o que Tony estava prestes a lhe contar do que tudo o que já havia visto.
Continua…
