Era uma sexta-feira de primavera. Eram exatamente 18h55. Àquela hora, como de costume, saí do meu consultório, despedi-me do cliente que eu acabara de atender e me preparei para chamar o último paciente do dia. Em instantes, eu abriria a porta da sala de espera para lhe indicar que já podia entrar. No entanto, ao espiar, compreendi de imediato que algo não se encaixava.
Para minha surpresa, havia outra pessoa no cômodo.
Perguntei-me como ela tinha chegado ali, se eu não a havia marcado. Seria algum familiar do paciente que aguardava? A ideia, porém, pareceu estranha. Aquele homem sempre vinha sozinho. Movido pela necessidade de esclarecer o mal-entendido, aproximei-me.
— Com licença, senhora. Boa tarde.
— Saudações, doutor — respondeu a desconhecida, fitando-me com uma compaixão aguda.
— Talvez tenha havido um engano, mas creio que a senhora não tem horário para hoje. O senhor que acabei de chamar é meu último paciente desta tarde. Veja, os atendimentos vão até as oito.
— Sim, eu vi no cartaz da entrada, tanto o seu nome quanto o seu horário.
— Entendo. Se a senhora quiser marcar para outro dia, posso anotá-la eu mesmo na agenda e, assim, conversaremos com tranquilidade.
— Não, claro, o senhor tem toda a razão. Veja, peço que me desculpe. Foi justamente ao conferir o seu horário que decidi entrar. Não pretendo incomodá-lo, garanto.
— Pois se está tudo tão claro, há algo que me escapa, senhora. Eu não consigo entender.
A mulher baixou o olhar por um instante antes de responder. Quando o ergueu de novo, notei nela uma inquietação serena, como se carregasse algo urgente demais para deixar em suspenso.
— É que… — murmurou, em voz baixa — eu preciso lhe contar algo que me aconteceu. E, do meu ponto de vista, é uma questão que não admite demora.
— É mesmo? — perguntei, já com expressão séria. — É tão importante assim a ponto de não poder esperar até a semana que vem? Amanhã é sábado. Deixe-me conferir minha agenda e farei o possível para encaixá-la o quanto antes, eu prometo.
Comecei a me sentir desconfortável. Meu paciente esperava sentado a poucos metros dali, e não era justo atrasar ainda mais a consulta.
— Não quero fazer o senhor perder tempo. Se o senhor concordar, resolveremos isto agora mesmo, de comum acordo.
— Como é? A que a senhora se refere? — perguntei, intrigado pela firmeza daquela mulher.
— É muito simples. Meu nome é Maria. Feche os olhos por alguns segundos e fale com a sua consciência. Em seguida o senhor terá a resposta.
Olhei para ela, desconcertado.
— Mas, meu Deus, aonde a senhora quer chegar? Isso é uma brincadeira? Não vê que estou com pressa?
— Não duvido, seu José — disse Maria, roçando de leve meu braço esquerdo com a ponta dos dedos. — Eu lhe suplico. Será só um instante. Por favor, deixe-se levar…
Não sei exatamente o que aconteceu nos segundos que se seguiram. Até hoje sou incapaz de explicar com lógica. Eu estava prestes a dizer que ela precisava fazer as coisas como manda o figurino; que, se quisesse me ver, teria de marcar horário como todo mundo. E, no entanto, não sei como acabei entrando no jogo dela. A verdade é que, de repente, senti-me impelido a aceitar sua proposta. Sem entender por quê, como se aquelas palavras tivessem encontrado uma fenda secreta na minha vontade, fechei os olhos.
O mistério começou então.
Depois de tantos anos exercendo como psicólogo, eu acreditava ter aprendido quase tudo o que era possível aprender sobre os mecanismos da mente humana: suas armadilhas, suas defesas, seus abismos, suas iluminações repentinas. Eu ouvira centenas de histórias, acompanhara pessoas em sua dor e tentara dar nome ao desconcerto que às vezes as devora por dentro. Mas aquilo era diferente. Aquilo não se parecia com nada.
De olhos fechados, pensei de repente que talvez Maria não tivesse chegado até mim por acaso; que talvez trouxesse consigo algo de valor — um ensinamento, um anúncio, uma verdade que eu ainda ignorava. Foi apenas um pressentimento, uma intuição tênue, mas carregada de sentido. E então, no meio daquela escuridão voluntária, percebi uma clareza estranha. Uma luz branca, silenciosa e envolvente, pareceu aproximar-se por trás de mim até me rodear por completo.
Minha reação foi imediata, quase inevitável.
— Acho que a senhora tinha razão — ouvi minha própria voz dizer, como se me chegasse de longe. — Está bem; ainda que só por hoje, faremos uma exceção. Quando meu último paciente sair, daqui a uma hora, eu a atendo. Se quiser, pode dar uma volta, tomar um café e voltar por volta das oito. O que acha, Maria?
Ela sorriu com uma serenidade que eu não soube interpretar.
— Obrigada pela sua compreensão, doutor. Embora, pensando bem, eu não vou sair daqui nem por todo o ouro do mundo — respondeu, com um gracejo inesperado. — Depois de ter conseguido convencê-lo, não vou perder a minha chance. Vou ficar aqui, em silêncio, se o senhor não se importar.
— Está bem, como preferir. Sobre a mesa há algumas revistas e, ali na frente, um bebedouro, caso sinta sede. Será um prazer ter essa conversa que promete ser tão interessante e pela qual a senhora insistiu tanto. Sem dúvida, sabe jogar com suas habilidades e com sua capacidade de persuasão. Parabéns.
— Obrigada, doutor. Não vou decepcioná-lo — concluiu Maria, estendendo-me a mão com uma cordialidade impecável.
Admito que me custou me concentrar na consulta das sete. Não sei o que foi exatamente que percebi naquela mulher, mas eu não parava de pensar no jeito como ela falava comigo, naquela maneira de se impor sem violência, de escorregar pela minha resistência até dobrá-la.
Quem diria. Uma perfeita desconhecida alterara minha agenda, desarranjara minha rotina e quebrara aquele horário quase sagrado das sextas-feiras, quando a única coisa que eu costumava desejar era voltar para casa, afrouxar a gravata e dedicar o resto do dia à minha mulher e ao meu filho.
E, ainda assim, eu não me sentia incomodado.
Minha profissão tinha me ensinado a conviver com o imprevisto, a entender que nem mesmo os fins de semana começam sempre do mesmo modo. Ainda assim, havia algo em tudo aquilo que resistia a se encaixar numa explicação razoável. Por que aquela luz às minhas costas? Por que aquele sussurro íntimo, quase imperceptível, que me empurrara a aceitar a proposição intempestiva de Maria? O que havia nela para provocar tamanha impressão em mim?
Tive de fazer um esforço para romper o diálogo interno que ameaçava me afastar da minha verdadeira tarefa: atender o homem sentado à minha frente. Mas nem mesmo enquanto o escutava consegui me desprender por completo daquela sensação. No fundo, bem no fundo, eu só desejava uma coisa: que o relógio do meu consultório finalmente empurrasse seus ponteiros até as 19h55.
Continua…

