Maria o escutou atentamente.
— Eu dirigia depois de beber, usava drogas, dormia pouco, me expunha continuamente a situações perigosas…
Antonio levou as mãos ao rosto.
— Durante muito tempo tive de refletir sobre isso. Sobre minhas decisões e suas consequências.
Quando voltou a olhar para Maria, as lágrimas já haviam surgido.
— Era como jogar numa loteria terrível. A cada noite eu comprava mais um bilhete, aumentando a chance de um dia ganhar o prêmio que ninguém quer receber.
Maria permaneceu imóvel.
— Isso não significa que eu quisesse morrer — esclareceu ele. — Nem que eu tivesse provocado aquele atropelamento. Mas eu vivia como se a possibilidade de perder tudo não tivesse nada a ver comigo.
— Até que aconteceu.
— Até que aconteceu.
A mulher baixou o olhar.
A raiva continuava dentro dela, mas começava a se misturar com algo diferente.
— Antonio…
— Diga.
— Não quero que entenda minhas palavras como se eu te odiasse.
Ele pareceu surpreso.
— Depois de tudo o que acabo de te dizer, pode parecer contraditório, mas ainda tenho carinho por você.
Antonio a contemplou em silêncio.
— Não sei — continuou Maria com um meio sorriso triste. — Talvez eu seja masoquista e goste de me torturar dia sim, dia também. Só falta comprar um chicote.
Antonio sorriu fracamente.
— Não acho que seja isso.
— Eu também não.
Maria soltou um suspiro.
— Suponho que o afeto não desapareça de repente só porque descobrimos coisas desagradáveis sobre alguém. Seria simples demais.
— Obrigado por dizer isso.
— Não agradeça ainda.
A advertência fez Antonio sorrir.
— Estou tentando ser construtiva — prosseguiu Maria. — Alguma coisa terá de mudar depois de tudo isso.
Olhou para as próprias mãos.
— Tenho mãos.
Depois abriu ligeiramente os olhos, como se estivesse surpresa com o próprio raciocínio.
— Tenho olhos. Tenho uma cabeça que, de vez em quando, até funciona.
Antonio soltou uma pequena gargalhada.
— Não vou deixar que uma fase ruim decida por mim pelo resto da minha existência.
Sua voz adquiriu uma firmeza que ele ainda não havia ouvido.
— Quem disse isso? Onde está escrito que eu tenha de me conformar com as circunstâncias atuais?
Maria começou a caminhar devagar enquanto falava, como se as palavras fossem dirigidas mais a ela mesma do que a Antonio.
— Talvez tenha chegado a hora de me rebelar.
Ele a acompanhou com o olhar.
— Mas não contra o mundo, nem contra Deus, nem contra todos aqueles que considero culpados pela minha desgraça. Me rebelar contra esta maneira de viver que me mantém presa.
Maria cerrou os punhos.
— Quero romper com essas lembranças de pesadelo, com essas correntes que me mantêm ligada a um passado sombrio e cheio de mentiras.
Levou uma das mãos ao peito.
— Não posso mudar o que aconteceu. Mas talvez possa decidir quanto poder isso ainda terá sobre mim.
Antonio permaneceu absolutamente calado. Maria também. Durante um longo intervalo, ela pareceu escutar o eco das próprias palavras. Algo acabara de acontecer dentro dela.
Não sabia exatamente o quê, mas, pela primeira vez desde que havia iniciado aquela estranha experiência, falara de seu futuro sem associá-lo inevitavelmente à morte.
Quando voltou a se dirigir a Antonio, seu tom era diferente.
— E agora quero saber uma coisa.
— Pergunte.
— Em que situação você se encontra atualmente?
Antonio pareceu agradecido pela mudança de assunto.
— Continuo vivendo na casa de que te falei.
— E continua fazendo terapia?
— Sim. Dizem que minha evolução está sendo positiva.
Antonio sorriu discretamente.
— Na verdade, este encontro com você faz parte do meu período de estágio.
Maria arqueou as sobrancelhas.
— Seu «estágio»?
— Exatamente.
— Quer dizer que vir até aqui, me contar todas as suas misérias e aguentar minhas censuras faz parte de uma espécie de exercício terapêutico?
— Dito assim, parece bem pior do que é.
— Então explique.
Antonio recuperou a serenidade.
— Lá aprendemos que pouco adianta compreender intelectualmente nossos erros se esse conhecimento não acabar produzindo algum efeito real.
— A teoria não basta.
— Exatamente.
Antonio apontou para ela.
— Eu poderia passar anos dizendo que estava arrependido por ter te enganado. Poderia repetir mil vezes que compreendia o mal que causei a você e a Tony. Mas, enquanto não fosse capaz de encarar vocês dois, assumir a reação de vocês e fazer algo útil com o que aprendi, meu arrependimento continuaria incompleto.
Maria o observou, surpresa.
— Então permitiram que você viesse me ver justamente por isso — deduziu Maria.
— Sim — respondeu Antonio. — Para verificar se sou capaz de enfrentar as consequências do que fiz e, dentro das minhas possibilidades, reparar uma parte do dano.
Maria o observou durante alguns segundos, como se aquela explicação terminasse de se encaixar em sua cabeça.
— Agora entendo. Esta conversa não faz parte apenas da minha prova.
Antonio negou devagar.
— Não, Maria. Também faz parte da minha.
Ela manteve os olhos nele.
— Você precisa enfrentar o que fez, e eu preciso enfrentar o que ainda posso fazer com a minha vida.
— Exatamente — confirmou Antonio com um leve sorriso.
Maria respirou fundo. Pela primeira vez desde que aquela experiência havia começado, aquelas palavras não lhe causaram medo.
— Então parece que nós dois temos algo a aprender esta noite.
— Parece que sim — respondeu Antonio.
E, durante alguns instantes, nenhum dos dois acrescentou nada. Já não estavam ali apenas como marido e mulher separados pela morte, nem como vítima e culpado diante de um passado doloroso. Eram duas pessoas obrigadas a encarar de frente aquilo que haviam sido e, sobretudo, aquilo que ainda podiam vir a ser.
Continua…
