AS TRÊS VIDAS DE MARIA (31) O outro rosto de Antonio

Maria sentiu o sangue subir ao rosto.

— Então você não se limitava a transportar passageiros. Captava clientes para eles.

Antonio fechou os olhos por um instante.

— Sim. E depois começaram a me pagar de outras maneiras.

A resposta, tão breve, caiu entre os dois como uma pedra.

— No início, eu só fazia isso — continuou ele. — Pensava que não era problema meu o que acontecesse depois. Dizia a mim mesmo que apenas dirigia um táxi e recomendava um lugar de diversão. Nada mais.

— Mas você sabia perfeitamente que tipo de estabelecimento era.

— Sabia.

Maria levou a mão à testa e começou a andar de um lado para o outro, incapaz de ficar parada.

— Meu Deus… Durante anos pensei que você dava o sangue trabalhando por nós. Que todas aquelas noites eram sacrifícios para que Tony e eu pudéssemos viver melhor.

— Eu também pensava em vocês — defendeu-se Antonio, sem convicção. — O dinheiro extra nos permitia pagar algumas dívidas, comprar presentes, nos dar certos luxos…

Maria se virou bruscamente.

— Não use Tony nem a mim para se justificar.

Antonio baixou a cabeça imediatamente.

— Você tem razão. Eu não deveria fazer isso.

— Todo aquele dinheiro que às vezes aparecia de repente… As notas que você me dava para comprar roupas, consertar a casa ou guardar um pouco… Vinham dos seus acordos com aquela gente?

— Uma parte, sim.

Maria soltou uma risada seca, sem alegria.

— Uma parte.

— Eu gostava de te dar aquele dinheiro — acrescentou ele. — Sabia que você era uma boa administradora e que o usaria para a família.

— Mesmo sem ser dinheiro limpo.

— Mesmo sem ser — reconheceu Antonio em voz baixa.

Maria o contemplou com uma mistura de dor e repugnância.

— Você tinha um acordo para alimentar um negócio de prostituição. Não tente amenizar. Essa é a verdade.

— Sim.

O silêncio se prolongou.

Maria tinha a sensação de que cada nova resposta apagava um fragmento do homem que havia amado.

— Antes você disse que, com o tempo, começaram a te pagar de outras maneiras — recordou por fim. — O que isso significa exatamente? Vai me explicar ou devo imaginar?

Antonio contraiu a mandíbula.

— Depois de perceberem que eu levava bons clientes e sabia manter a boca fechada, começaram a me tratar como um dos seus.

— Em que sentido?

— Deixavam que eu bebesse o quanto quisesse sem pagar. E, quando eu tinha vontade, podia ficar com alguma das mulheres que trabalhavam ali.

Maria empalideceu.

Embora já tivesse previsto a resposta, ouvi-la dos lábios dele lhe causou uma dor muito mais aguda.

— Serviços sexuais e álcool — disse muito devagar.

Antonio não teve coragem de olhar para ela.

— Sim.

Maria respirou várias vezes, tentando conter o tremor do corpo.

— Então você não mentia apenas sobre o dinheiro ou sobre seus horários. Também me traía com outras mulheres.

— Se você quer chamar assim, sim, Maria.

— Quantas vezes?

Antonio ergueu os olhos, mas não respondeu.

— Perguntei quantas vezes.

— Não me lembro exatamente.

Aquela resposta pareceu feri-la ainda mais do que um número concreto.

Maria desviou o olhar. As lágrimas começaram a se acumular em seus olhos, embora ela se recusasse a deixá-las cair.

— Durante cinco anos chorei sua morte — disse com a voz embargada. — Transformei você no marido trabalhador que um canalha desconhecido arrancou de mim. Agarrei-me às suas fotografias, às suas lembranças, a tudo de bom que havíamos vivido. Cheguei até a me perguntar se eu poderia ter feito alguma coisa para impedir que você saísse naquela noite.

Antonio permaneceu imóvel, suportando cada palavra.

— E agora descubro que, enquanto eu esperava por você em casa, você estava bebendo, levando homens a um prostíbulo e se deitando com as mulheres do lugar.

— Sinto muito.

— Não se limite a dizer que sente muito.

— Não sei o que mais posso dizer.

— A verdade — retrucou ela. — É isso que eu quero. Toda a verdade, mesmo que me destrua.

Antonio respirou fundo.

— O Ícaro usava o hotel como fachada. A prostituição era um de seus principais negócios, mas não o único. Por ali passavam políticos ligados à prefeitura, empresários e outras pessoas poderosas. Todos trocavam favores. Uns olhavam para o outro lado, outros facilitavam licenças, e alguns se beneficiavam diretamente do dinheiro que circulava.

— Uma rede de corrupção.

— Sim.

— E você fazia parte dela.

Antonio levou alguns segundos para responder.

— Em um nível pequeno, mas sim. Eu era um dos que alimentavam aquele negócio, levando clientes e guardando silêncio.

Maria balançou a cabeça, incapaz de reconhecer o homem diante dela.

— Mais de uma vez ouvi rumores sobre aquele lugar, mas nunca lhes dei atenção. O que jamais imaginei foi que meu próprio marido estivesse envolvido até o pescoço naquela decadência.

Ela o olhou com profunda tristeza.

— Você, um taxista da cidade, passava mais tempo entre o aeroporto e aquele hotel do que percorrendo os bairros. Enquanto isso, eu ficava em casa, convencida de que trabalhava por nós.

Antonio deu um passo curto em sua direção, mas Maria ergueu a mão para detê-lo.

— Não se aproxime. Nem pense nisso.

Ele obedeceu.

— Preciso de tempo para compreender quem você realmente era — acrescentou ela. — Ou, melhor dizendo, quem você foi durante aqueles anos sem que eu soubesse.

Antonio baixou a cabeça.

Pela primeira vez desde o reencontro, Maria não sentiu vontade de abraçá-lo. Percebeu apenas uma distância imensa entre os dois, construída por cada uma das mentiras que ele acabara de confessar.

Continua…

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