AS TRÊS VIDAS DE MARIA (15) Os mortos não podem se defender

— Será possível? A senhora é uma mulher sábia, dona Ana. Fiquei tão feliz por reconhecê-la que estou às suas ordens. Mas há algo que eu não consigo entender: por que a senhora é a única pessoa que conseguiu me ver?

— É fácil de responder, embora não seja tão simples de explicar.

— É mesmo? Estou louca para ouvir.

Dona Ana ficou em silêncio por alguns segundos antes de falar.

— Maria, a vida me golpeou com crueldade. Passei por muitas dores e, no fim, isso deixa marcas. Não sei se algum dia cheguei a te contar, mas eu perdi as duas pessoas que eu mais amava neste mundo.

A idosa disse aquilo com uma serenidade melancólica, como quem fala a partir de uma ferida muito antiga.

— Mas… eu não sabia nada disso — respondeu Maria, surpresa. — Acho que a senhora nunca me falou dessa parte da sua vida. Eu gostaria de conhecer essa história.

De repente, risadas soaram às suas costas.

Maria se virou sem conseguir evitar. A poucos metros dali, alguns funcionários conversavam entre si.

— Ha, ha, olha só — disse um deles. — Lá está a velha do 19, de novo, falando sozinha. Desde que aquela doida que se enforcou se foi, ela anda falando cada vez mais sozinha. Deve estar com saudade.

— E você queria o quê? — entrou uma cuidadora. — Quero ver você com a idade dela. Deve estar beirando os noventa. Depois do almoço, pede pra ela recitar a tabuada do nove. Quem sabe ela até se arrisca.

Um terceiro funcionário, que passava por ali, parou ao ouvir aquilo.

— Ei, você — disse, visivelmente incomodado. — Você pegou pesado chamando a Maria de “doida”. Você a conhecia?

O primeiro deu de ombros.

— Mais ou menos. De vez em quando a gente se encontrava aqui no trabalho. Eu só quis dizer que ela parecia uma pessoa muito ansiosa. Sei lá… talvez tivesse depressão ou coisa assim.

— Claro — retrucou o outro. — E com isso já acha que pode sair dando sentença como se soubesse de tudo. Eu, sim, era amigo dela, entendeu? A gente se dava bem. Às vezes ela me contava coisas da vida dela.

O homem deu um passo na direção dele, indignado.

— Falar é fácil. Você sabia que ela ficou viúva aos trinta e três anos? O marido dela foi atropelado no meio da noite.

— Não fazia ideia.

— Você sabia que o filho dela, de quinze anos, preocupava muito, porque andava com más companhias?

— Não.

— E você sabia que na família dela havia histórico de depressão e que a mãe dela morreu de um câncer fulminante no pâncreas?

— Isso eu também não sabia.

— Então pra que ficar falando do que você não sabe? Isso é falar por falar. A morte dela mexeu muito comigo. Então tenha mais respeito por essa mulher, porque os mortos não podem vir aqui se defender.

O funcionário abriu as mãos, num gesto de raiva contida.

— Poxa…

— Tá, tá — respondeu o outro, mais baixo. — Eu também não sabia que vocês eram tão próximos. E como é que eu ia saber da história dela? A gente trabalhava em turnos diferentes, mal se via. Ela nunca me contou nada.

— Claro. Porque nem todo mundo sai contando as próprias intimidades pra qualquer um. Da próxima vez, pensa antes de falar — você é um bocudo.

Depois daquela discussão, os ânimos foram se acalmando e os funcionários voltaram às suas tarefas.

Dona Ana olhou para Maria com seriedade.

— Viu, querida? Agora você entende por que às vezes não vale a pena revelar todos os seus segredos?

Maria assentiu devagar, ainda afetada.

— Sim, eu entendo. Pelo menos o Alfonso me defendeu. Eu me dava muito bem com ele. A gente tinha boas conversas. Do outro… prefiro nem falar.

— Como eu estava dizendo — continuou a idosa, com firmeza —, eu também enfrentei duas experiências dessas que dilaceram a gente por dentro e mudam o destino. Você está pronta para ouvir o meu relato? Acho que, nas suas circunstâncias, pode te fazer bem.

— Sim, claro. Pode começar quando quiser.

Dona Ana acomodou as mãos no colo.

— Veja, Maria. Eu me casei jovem — e por amor. Fui feliz, imensamente feliz. Meu marido era militar, capitão do Exército, e servia no norte. Depois de algumas tentativas, consegui engravidar. A notícia de que esperávamos um filho foi a coisa mais bonita que já tinha acontecido conosco.

— Desculpe, dona Ana — interrompeu Maria —, eu me lembro das nossas conversas: a senhora era uma mulher muito culta. A senhora tinha conseguido uma vaga como professora de História num instituto.

— Sim, é verdade. Com muito esforço e uma paciência enorme, eu consegui passar no concurso pouco antes de engravidar. Curiosamente, o meu primeiro destino foi no sul. Meu marido não queria ficar longe de mim, então moveu céus e terra para se aproximar. Deve ter falado com alguém influente, porque, pouco tempo depois, já promovido a comandante, o transferiram para um quartel perto do instituto onde eu dava aula.

A idosa sorriu com doçura.

— Nós dois concordávamos numa coisa: depois de todo o empenho que eu tinha investido para conseguir a minha vaga, eu não podia abrir mão da minha condição de servidora pública. Em resumo, querida, eu não podia pedir mais nada da vida.

— É verdade, dona Ana. Um marido que a respeitava, um filho desejado, uma profissão conquistada com esforço… o que mais se poderia querer?

A idosa baixou o olhar por um instante.

— Com o tempo eu aprendi que uma vida sem problemas não é, de fato, uma vida. Se eu via sofrimento ao meu redor, por que isso não me atingiria também? Eu seria uma privilegiada, por acaso?

A voz dela ficou mais profunda.

— É porque é nas dificuldades que a gente amadurece. É impossível testar a resistência das suas pernas se o caminho não se inclina. Eu conheci muitas pessoas que só queriam caminhar em terreno plano. Mas a vida não funciona assim.

Continua…

Deja una respuesta

Tu dirección de correo electrónico no será publicada. Los campos obligatorios están marcados con *

Puede que te guste