AS TRÊS VIDAS DE MARIA (48) A última prova

A mulher não soube quanto tempo permaneceu naquela posição. Sentada no chão, com a cabeça inclinada, repassou mentalmente fragmentos da conversa que acabara de ter com Antonio. Suas mentiras. Seus erros. Seu arrependimento. Tony.

E, sobretudo, aquelas últimas palavras: «só você pode afastar essa corda».

Uma brisa fresca roçou de repente seu pescoço. Maria levantou ligeiramente a cabeça.

O ar voltou a acariciá-la. Não precisou de mais nada.

— Ángel? — perguntou em voz alta. — É você? Está aí?

Uma voz conhecida respondeu quase de imediato.

— Ora. A senhora está começando a se acostumar com a minha presença.

Maria se levantou e procurou com o olhar a origem daquela voz. Ángel estava a pouca distância.

— Você já é capaz de me reconhecer antes mesmo de me ver — acrescentou com um sorriso. — Está desenvolvendo certas sensibilidades que, algumas horas atrás, nem sequer imaginava possuir.

Maria sorriu fracamente.

— Deixei você sozinha por algum tempo — explicou Ángel. — Precisava assimilar o que aconteceu sem que ninguém interferisse. Serviu para alguma coisa?

Maria olhou para o ponto onde Antonio havia desaparecido.

— Foi um golpe tremendo, mas talvez necessário — acrescentou ela. — Acho que precisava passar por tudo isso para reagir.

— E reagiu?

Maria demorou alguns segundos para responder.

— Acho que estou começando a compreender alguma coisa.

Ángel sorriu.

— Isso parece promissor.

— Durante muito tempo me deixei arrastar pelas circunstâncias. Uma coisa ruim levava a outra, e depois a outra. Deixei de lutar porque estava cansada e, quanto menos lutava, mais difícil tudo me parecia. O abandono alimentou meu desespero, e o desespero acabou me convencendo de que não havia saída alguma.

Ángel a observava sem interrompê-la.

— Agora vejo que talvez o problema não fosse apenas a tempestade.

— A tempestade?

Maria assentiu.

— Uma imagem me veio à cabeça enquanto eu estava sozinha. Imaginei um capitão no comando de um navio.

Ángel inclinou ligeiramente a cabeça.

— Quando o mar permanece calmo, ele pode se permitir certo relaxamento. O barco avança quase sozinho e mal precisa corrigir o rumo.

— Certo.

— Mas, se surgem nuvens escuras, o vento começa a soprar e as ondas passam a golpear o casco, esse capitão já não pode continuar sentado esperando que tudo passe. Precisa se levantar. Segurar o leme. Dar ordens. Ajustar as velas, corrigir o rumo ou fazer o que for necessário para impedir que o navio afunde.

Olhou diretamente para Ángel.

— Acho que foi isso que deixei de fazer. Sentei para observar a tempestade se aproximar e acabei me convencendo de que o naufrágio era inevitável.

Ángel sorriu.

— Uma ótima metáfora.

— Não está ruim, não é?

Maria pareceu satisfeita por alguns segundos.

— Eu diria que estamos avançando — acrescentou Ángel.

— Espero que sim.

— Tanto que chegou a hora de continuar.

A expressão de Maria mudou imediatamente.

— Continuar?

— Sim.

Ángel adotou um tom mais sério.

— Vamos para a sua terceira prova.

Maria arregalou os olhos.

— Terceira?

— E última.

Ela soltou o ar com força.

— Desculpe, Ángel, mas você não acha que já tive o bastante?

— Compreendo que esteja cansada.

— Acabo de descobrir que meu marido levava uma vida dupla, contemplei sua morte, falei com ele depois de cinco anos e acabo de me despedir outra vez. Não sei o que mais você precisa para me aprovar.

Ángel sorriu levemente.

— Não se trata de eu aprovar você.

— Lá vamos nós.

— É você quem precisa se aprovar.

A resposta fez Maria ficar em silêncio.

— Todo este processo tem uma finalidade — continuou Ángel. — Não adiantaria muito você estar convencida durante alguns minutos e depois, quando o medo e as dúvidas voltassem, retornar ao ponto de partida.

— Você quer ter certeza de que a lição foi assimilada.

— Prefiro dizer que você mesma precisa ter certeza disso.

Maria franziu a testa.

— E o que vocês vão verificar agora?

Ángel a contemplou com uma expressão muito mais grave.

— A verdadeira medida da sua firmeza.

O comentário não lhe agradou.

— Isso soa francamente mal.

— Não necessariamente.

— Toda vez que você diz algo parecido, acabo metida em algum cenário que me destrói por dentro.

— Eu avisei desde o início que as provas aumentariam progressivamente de intensidade.

— Sim, eu me lembro. Obrigada por me recordar.

— Esta será a última.

Maria suspirou.

— E se eu me recusar?

— Pode fazer isso.

A resposta a surpreendeu.

— Assim tão simples?

— Você sempre conservou sua liberdade. Mas, se chegou até aqui, talvez valha a pena terminar o caminho.

— É como ler um romance e fechá-lo quando faltam dez páginas para o final.

— Uma comparação muito apropriada, tratando-se de você.

— Está bem. Não vou sair daqui sem chegar à última página.

— Era isso que eu queria ouvir.

— Além disso, depois de tudo o que vivi, tenho uma suspeita.

— Qual?

— Se estamos seguindo mais ou menos o modelo de Um Conto de Natal, já conheci algo parecido com o passado e o presente. Então agora deve ser a vez do fantasma do Natal Futuro.

— Vejo que Dickens está ajudando bastante.

— Pois vou te confessar uma coisa: conheço o fantasma que vai aparecer para mim, mas não tenho a menor vontade de ver o que ele pretende me mostrar.

Ángel sorriu com serenidade.

— O futuro ainda não está escrito de uma única maneira, Maria. Depende, entre outras coisas, do que você fizer depois de vê-lo.

Maria sentiu um arrepio.

— Cada vez você consegue me tranquilizar menos.

— Não pretendo tranquilizar você.

— Então?

— Preparar você.

Houve um silêncio. Maria olhou para a escuridão que se estendia à sua frente. Pensou em dona Ana. Em Antonio. Em Tony. Em seu corpo, ainda suspenso entre a vida e a morte.

Depois fechou os olhos por alguns segundos. Quando voltou a abri-los, sua expressão havia mudado.

— Está bem, Ángel.

— Tem certeza?

— Não.

Ele arqueou as sobrancelhas.

— Mas suponho que a coragem não consista em não sentir medo.

Ángel sorriu.

— Continue.

Maria respirou profundamente.

— Consiste em seguir em frente, mesmo sentindo medo.

O sorriso de Ángel se ampliou.

— Então acho que está preparada.

Maria dirigiu o olhar para o lugar onde intuía que surgiria um novo limiar.

Fez uma breve pausa.

— Quero conhecer minha última prova.

Continua…

Deja una respuesta

Tu dirección de correo electrónico no será publicada. Los campos obligatorios están marcados con *

Entrada siguiente

LAS TRES VIDAS DE MARÍA (49) El umbral de la tormenta

Jue Oct 1 , 2026
—Las leyes funcionan así, María. Conforme el estudiante va adquiriendo experiencia, se va exponiendo a exámenes más complicados. Es de justicia, ¿no te parece? —Sí, es de sentido común. He de decirte que estoy un poco asustada, Ángel. Prométeme que seré capaz de aguantar esta prueba sin derrumbarme. —Eso depende […]

Puede que te guste