AS TRÊS VIDAS DE MARIA (34) A escada da vertigem

— No início — continuou Antonio — surgiram as lembranças felizes.

Seu rosto se suavizou por alguns instantes, como se as imagens que evocava conseguissem afastá-lo da escuridão daquela estrada.

— Vi minha infância, os anos de escola, meus amigos… Até me lembrei do dia em que consegui a licença para trabalhar como taxista. Depois, você apareceu.

Maria permaneceu em silêncio.

— Voltei a contemplar como nos conhecemos, nossos primeiros encontros, os passeios, a emoção de nos sentirmos apaixonados… e, por fim, nossa vida de casados. Aquela era a parte bonita do filme. A que gostaríamos de conservar para sempre.

Antonio respirou profundamente.

— Mas depois começou outra parte, muito diferente.

— Diferente em que sentido? — perguntou Maria, ainda na defensiva. — O Ícaro de novo?

— Sim. O hotel começou a se infiltrar nos capítulos mais importantes da minha vida até deformá-los por completo. Primeiro vieram as corridas com os clientes, as conversas dentro do táxi, as comissões… Depois chegaram as noites de diversão, as mulheres e o álcool.

Baixou a voz.

— E também as viagens de volta para casa. Meia hora ao volante, muitas vezes bêbado… e sob o efeito da cocaína.

Maria arregalou os olhos, atônita.

— Cocaína também?

Antonio não respondeu de imediato.

— Meu Deus… — acrescentou ela. — Álcool, mulheres e agora drogas estimulantes. Ainda há alguma coisa que você não tenha me contado?

— Não estou tentando esconder nada de você.

— E por que você usava cocaína? — perguntou, com raiva. — Deixe-me adivinhar: para aguentar suas intermináveis noites de prazer.

Antonio baixou a cabeça.

— Sim. Para permanecer acordado, sentir-me forte e prolongar a noite. O cansaço desaparecia e, durante algumas horas, eu acreditava que podia enfrentar qualquer coisa.

— Maldita seja essa sua noite! — explodiu Maria. — Você está se ouvindo? Fala como se estivesse descrevendo a vida de outro homem.

— De certo modo, era isso mesmo.

A resposta a deixou desconcertada.

— O que quer dizer?

— Que acabei me transformando em alguém que nem eu mesmo reconhecia.

Antonio olhou para o hotel, iluminado ao longe.

— No início, aquela vida era como uma escada que me dava vertigem. Cada degrau significava fazer algo que, até então, eu considerava errado. O primeiro cliente que levei, sabendo o que encontraria ali. A primeira comissão. A primeira bebida gratuita. A primeira mulher.

Fez uma pausa.

— No começo, eu hesitava antes de subir cada degrau. Mas a cocaína eliminava o medo. Quanto mais eu subia, menos consciência tinha da altura.

Maria o observou, ainda irritada, embora presa à imagem.

— E, quando quis descer, já era tarde demais.

— Era o que eu pensava. Embora a verdade seja que, durante muito tempo, nem sequer quis descer. Dizia a mim mesmo que poderia parar quando quisesse. Esse é um dos grandes enganos da droga: ela convence você de que ainda domina a situação justamente quando está perdendo o controle.

Levou uma das mãos à testa.

— Você se sente poderoso. Inteligente. Capaz de trabalhar a noite inteira, beber, se divertir e depois dirigir como se nada tivesse acontecido. Acredita ser o protagonista de um filme, o homem que controla a cena. Mas é apenas uma vítima interpretando o papel que a substância escreveu para você.

— Uma vítima muito satisfeita — replicou Maria com frieza.

Antonio assentiu.

— Você tem razão. Não quero me apresentar como alguém inocente. A cocaína me prendeu porque fui eu quem abriu a porta e porque gostava do que sentia. Ela me proporcionava uma falsa segurança e alimentava meu orgulho.

— E, enquanto você se sentia invencível, Tony e eu vivíamos com um estranho sem saber.

A dureza daquelas palavras o obrigou a fechar os olhos.

— Você levava uma vida paralela — prosseguiu Maria. — Uma família em casa e outra existência durante a noite. Nós éramos os únicos que desconhecíamos o jogo duplo.

— Sim.

— E nunca chegou a olhar para nós e sentir vergonha?

— Muitas vezes.

— Mas não o bastante para parar.

Antonio não encontrou resposta.

— Eu tentava manter certa ordem dentro daquele caos — disse depois. — Trabalhar algumas horas, levar dinheiro para casa, não chegar bêbado demais, descansar o suficiente para que você não desconfiasse… Cheguei até a me convencer de que tinha tudo sob controle.

— Outro autoengano.

— O maior de todos.

O homem permaneceu em silêncio. Quando voltou a falar, seu tom havia mudado.

— Depois de beber aquela substância esverdeada e acordar um pouco mais recuperado, as lembranças retornaram com uma clareza brutal. Eu já não conseguia contemplá-las como antes nem envolvê-las em desculpas.

Maria percebeu a dor em sua expressão.

— Eu me vi como um homem fraco, frágil, dominado por seus impulsos e por aquelas substâncias. Um ser que se gabava de ser livre quando, na verdade, havia se transformado em escravo.

Antonio cerrou as mãos.

— Eu nem sequer reconhecia o homem que aparecia naquelas imagens. Senti vergonha, repugnância… e uma raiva imensa de mim mesmo.

— Deve ter sido muito cômodo odiar o Antonio de antes como se ele fosse outra pessoa.

Ele aceitou a censura sem protestar.

— Pensei nisso. Durante alguns instantes, quis me separar dele, dizer a mim mesmo que aquele homem já não existia. Mas compreendi que continuava sendo eu. Não podia rejeitá-lo como a um desconhecido. Tinha de assumir quem eu havia sido.

Maria baixou o olhar, refletindo sobre suas palavras.

— E o que você fez com toda essa repugnância que sentia?

— Pela primeira vez, pensei que poderia usá-la para mudar. Não para apagar o que havia acontecido, mas para deixar de ser aquele sujeito prisioneiro dos próprios apetites.

Continua…

Deja una respuesta

Tu dirección de correo electrónico no será publicada. Los campos obligatorios están marcados con *

Puede que te guste