O rapaz endureceu ligeiramente a expressão.
— Quando ninguém te dá nada, você aprende a conseguir as coisas por conta própria. Aprende a sobreviver.
Maria permaneceu em silêncio.
— Nesses lugares — prosseguiu Tony —, você aprende rápido que, se parecer fraco, passam por cima de você. Você se acostuma a partir para cima antes que partam para cima de você, a ser agressivo, a não confiar em ninguém. Pouco a pouco, vai ficando mais duro.
— Até se transformar em outra pessoa.
— Exatamente.
Tony baixou os olhos.
— É como respirar dentro de um quarto cheio de fumaça. No começo você se sufoca. Depois acaba se acostumando com o ar sujo.
A comparação impressionou Maria.
— E, no fim, você esquece como era respirar ar puro.
Maria sentiu um arrepio. Durante alguns segundos, contemplou aquele jovem e tentou encontrar, por trás de seu rosto, o menino que havia criado.
— E você… — começou a perguntar. — Você, que fala tanto de drogas, de vender, de usar…
Naquele exato instante, um motor rugiu do lado de fora. Uma moto parou em frente à casa e a buzina soou três vezes. Tony reagiu imediatamente.
— Merda.
Levantou-se.
— O que foi?
— Chegou alguém.
A buzina voltou a soar.
— Desculpe, Maria, mas a senhora precisa ir embora.
Ela sentiu uma decepção inesperada.
— Agora?
— Sim. Estou esperando mercadoria.
Tony olhou para a porta.
— A senhora sabe: negócios são negócios.
Maria também se levantou.
— Então… terminamos?
A pergunta saiu com uma tristeza que ela nem tentou esconder.
— Não faça essa cara.
Ele a observou por alguns instantes.
— Vamos fazer o seguinte.
— O quê?
— Volte amanhã a esta mesma hora.
Maria ficou imóvel.
— Você quer que eu volte?
Tony pareceu se surpreender com a própria proposta.
— Sim.
Depois sorriu com certo constrangimento.
— E não me pergunte por quê.
Maria sentiu o peito se encher de uma emoção inesperada.
— Não vou perguntar.
— É estranho — continuou ele. — Normalmente não conto minha vida para ninguém. Muito menos para uma desconhecida. Mas com a senhora eu fico tranquilo.
Maria teve que fazer um esforço enorme para não cair no choro.
Tony apontou para os fundos.
— Vamos. Saia pela porta dos fundos. Assim não vai precisar dar de cara com o pessoal que está chegando agora.
A buzina soou novamente. Tony ergueu a voz:
— Já vou! Vocês não têm paciência nenhuma!
Maria caminhou até a porta. Antes de atravessá-la, voltou-se.
— Adeus, Tony.
O jovem olhou para ela.
— Até amanhã, Maria.
Ela lhe dirigiu um olhar cheio de ternura. Depois saiu.
De volta à rua, Maria permaneceu imóvel por alguns segundos.
E agora?
Tony havia pedido que ela voltasse no dia seguinte, mas ela não fazia ideia do que aconteceria até lá.
Começou a caminhar sem rumo. Cinco anos depois de seu suicídio, acabara de conversar com o próprio filho. E seu filho não sabia que estava falando com ela.
A conversa com Antonio lhe causara dor ao revelar sua vida dupla. Mas aquilo era diferente. Muito pior. Ela havia visto as consequências de sua própria ausência. Tony tinha ficado sozinho. Havia passado por parentes, instituições, drogas, violência…
E aquela possibilidade de futuro parecia ter nascido, ao menos em parte, da decisão que ela ainda estava a tempo de evitar. Maria sentiu como se tivessem apertado seu coração. Continuou caminhando.
Então, uma ideia lhe ocorreu.
Queria ver sua casa. Seu antigo lar. O lugar onde tinha vivido com Antonio e Tony. O mesmo apartamento em que havia tomado a decisão de acabar com a própria vida.
Não sabia o que encontraria ali cinco anos depois, mas precisava ver.
Acelerou o passo. Talvez aquele cenário ainda guardasse uma resposta que ela não havia sido capaz de encontrar em nenhum outro lugar.
Continua…
