— Antonio — disse Maria com firmeza —, acho que chegou a hora de você assumir de verdade o que fez.
Ele permaneceu em silêncio.
— Você deixou sua família à própria sorte. Não no aspecto econômico, porque entrava dinheiro em casa, mas em algo talvez mais importante: o afeto, a ternura, o tempo compartilhado. Mal coincidíamos nos fins de semana e, às vezes, nem isso.
Maria deixou escapar um sorriso amargo.
— Como você era esperto. Chegou até a me dizer que trabalhar aos sábados e domingos era mais rentável porque as corridas pagavam melhor.
Antonio baixou o olhar.
— E claro que eram rentáveis para você — continuou ela —. Sobretudo tendo tão perto aquele hotel repugnante junto ao aeroporto.
Por alguns segundos, pareceu se arrepender da dureza de suas palavras, embora logo retomasse o fio de seus pensamentos.
— Sabe de uma coisa? Talvez sua confissão tenha me feito bem.
Antonio ergueu a cabeça, surpreso.
— Bem?
— Não faça essa cara. Não estou dizendo que fico feliz com o que você fez. Digo que tudo isso está me obrigando a olhar para nossa vida de outra maneira.
Maria respirou fundo.
— Desconfiar… claro que eu desconfiava. Eu não era uma idiota andando pelo mundo sem perceber nada.
Ficou pensativa.
— Havia sinais. Seus horários, suas ausências, a distância entre nós… Alguma coisa dentro de mim sabia que as coisas não estavam bem.
— Você nunca me disse nada.
— Esse foi o meu erro.
Maria baixou a voz.
— Fui covarde. Não tive coragem de sentar você na minha frente e exigir uma explicação.
Antonio fez menção de intervir, mas ela levantou uma das mãos.
— Deixe-me terminar.
Ele obedeceu.
— Eu me justificava pensando que, pelo menos, entrava dinheiro em casa. Que Tony tinha suas necessidades atendidas. Que podíamos pagar a hipoteca, chegar ao fim do mês sem aperto e nos permitir alguma coisa de vez em quando.
A mulher balançou a cabeça lentamente.
— É incrível até onde o autoengano pode chegar.
Antonio a observou com atenção.
— É como ter uma mancha de umidade na parede e colocar cortinas bonitas na frente. Você deixa de vê-la, mas a umidade continua ali, crescendo pouco a pouco.
Maria apontou para um ponto imaginário.
— Foi isso que eu fiz com nosso casamento. Coloquei cortinas diante da parede e procurei não olhar por trás delas.
Houve um silêncio.
— É difícil admitir — continuou ela —, mas você não é o único que está descobrindo coisas desagradáveis sobre si mesmo.
— Maria, você não precisa carregar meus erros.
— Não estou carregando.
A resposta foi imediata.
— Suas traições foram suas. As mulheres, as drogas, as mentiras… tudo isso pertence exclusivamente a você. Mas o meu silêncio era meu.
Antonio não respondeu.
— E às vezes me pergunto o que teria acontecido se eu tivesse sido mais corajosa.
— Você não pode saber.
— É justamente por isso que isso me atormenta.
Maria o olhou com tristeza.
— Talvez você tivesse reagido. Quem sabe uma conversa séria, uma ameaça de separação ou simplesmente ser obrigado a reconhecer que eu sabia o que estava acontecendo tivesse feito você parar.
Antonio negou suavemente com a cabeça.
— Ou talvez não.
— Também pensei nisso.
Maria apertou os lábios.
— Talvez tivéssemos acabado nos separando. Cada um para um lado. Eu teria ficado com Tony e, com o tempo, talvez tivesse reconstruído minha vida com um homem que realmente me amasse.
Antonio sentiu o golpe, embora não protestasse.
— Alguém que não me traísse — prosseguiu ela —. Alguém que estivesse em casa, que se preocupasse com o menino, que exercesse o papel de pai com dignidade, mesmo que Tony não tivesse seu sangue.
Sua voz se quebrou levemente.
— Sabe o que mais me dá raiva?
Antonio esperou.
— Pensar que passei estes últimos cinco anos lamentando ter ficado viúva tão jovem.
Maria levou uma das mãos ao peito.
— Eu repetia para mim mesma que tinha tido azar, que a vida havia tirado de mim o homem que eu amava. Cheguei até a me sentir culpada por coisas que talvez pudesse ter feito de outra maneira.
Seus olhos se encheram de lágrimas.
— E agora descubro que estava chorando por uma história que eu não conhecia por completo.
Antonio fechou os olhos.
— Se eu soubesse de tudo isso naquela época — continuou Maria —, talvez tivesse sentido sua falta de outra maneira.
— Eu entendo.
— Não. Acho que ainda não.
A mulher o encarou diretamente.
— Provavelmente eu teria sentido dor pela sua morte, claro. Você era o pai do meu filho e tinha sido uma parte essencial da minha vida. Mas talvez eu não tivesse me fechado durante anos no papel de viúva inconsolável.
Antonio não encontrou resposta.
— Talvez eu até tivesse permitido que outro homem se aproximasse de mim.
O silêncio se tornou quase insuportável.
— Alguém que me amasse sem mentiras — acrescentou ela —. E que amasse Tony também.
Antonio inclinou a cabeça.
Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.
— Lamento tanto ouvir você dizer isso — murmurou ele finalmente.
— Porque dói em você?
— Porque dói, e muito.
Antonio ergueu o olhar. Seus olhos estavam úmidos.
— Mas você tem o direito de dizer isso. Durante tempo demais, você carregou uma imagem falsa da nossa vida e, em grande medida, fui eu quem a construiu.
Maria permaneceu em silêncio.
— Você também tem razão em outra coisa — continuou Antonio —. Não deveria ter vivido presa à culpa depois da minha morte.
Respirou fundo.
— Eu não fui responsável por aquele motorista ter me atropelado. Seria absurdo afirmar isso. Mas fui responsável por ter transformado minha vida numa sucessão de riscos. Noite após noite, eu aumentava as chances de que, mais cedo ou mais tarde, algo grave acontecesse.
Continua…
