— Seu José, o senhor nunca teve uma experiência fora do corpo, como a que eu estou lhe contando?
— Como a sua, com certeza não — respondeu o psicólogo. — Mas já ouvi relatos de pessoas que garantem que, durante o sono, conseguem deixar o corpo, se ver deitadas na cama, caminhar pela casa ou até se comunicar com outros indivíduos que também estão dormindo.
— Sim… não deve ser um fenômeno tão estranho. Eu conheço gente a quem aconteceu algo parecido.
— Ainda assim, eu reafirmo, Maria. O que a senhora está narrando vai muito além de uma experiência curiosa. Daria para escrever um diário.
— Bem. Acho que agora recuperei as forças. Está tão bom aqui. Se o senhor achar melhor, vou fechar os olhos para me concentrar e continuar contando o que aconteceu depois que eu encontrei aquele senhor, espírito ou o que quer que fosse.
— Acho ótimo.
Maria se acomodou de novo no divã. Fechou os olhos e deixou a lembrança voltar.
— Eu acho que o meu corpo, pendurado naqueles cadarços de tênis, talvez nem tenha percebido o que estava acontecendo. Deve ter sido a minha alma — como acontece em alguns sonhos — que saiu daquela prisão que era o organismo e tomou consciência de tudo.
Depois de beber um pouco de água, o psicólogo a estimulou com delicadeza:
— Pode continuar. Eu estou ouvindo. Conte, com detalhes, tudo o que a senhora se lembrar daquele dia de “morte” e “ressurreição”.
*******
O ambiente havia se acalmado.
Apesar dos momentos de tensão provocados pela recusa de Maria em voltar para o corpo, agora parecia ter-se aberto entre ela e Ángel um canal de comunicação mais sereno. A prova foi o sorriso que ambos trocaram, instantes antes de iniciar aquele experimento estranho.
— Acho que devo seguir as suas instruções — disse Maria. — Eu não quero me perder. Tudo isso é desconhecido para mim.
— É isso mesmo — respondeu Ángel. — Vamos avançar pelo corredor da sua casa até o fundo. Mas, antes, você precisa esquecer como era a sua casa e como funcionava o seu antigo plano terreno. No meu mundo, as estruturas obedecem a outros parâmetros.
Maria o olhou com atenção.
— É melhor aceitar assim — acrescentou ele. — Do contrário, você vai tentar explicar tudo com as regras antigas, e isso só vai te confundir.
Fez-se um breve silêncio.
— Daqui a pouco — prosseguiu Anjo — você vai deixar de se apegar às lembranças do mundo físico e começar a se adaptar a esta nova dimensão. Nada acontece por acaso, Maria. O que você está prestes a viver responde a razões muito concretas. Talvez agora não consiga entendê-las por completo, mas mais adiante vai conseguir.
O espírito fez um gesto com a mão, indicando que ela avançasse até o fim do corredor.
— Preste atenção ali no fundo. Me diga o que você vê.
Maria obedeceu. Semicerrou os olhos e observou aquele ponto com estranheza crescente.
— É… uma porta escura. Mas no meu apartamento não existe uma porta assim. Como isso é possível?
— Lembre-se do que eu acabei de lhe dizer. Não aplique os seus esquemas antigos. Essa porta não pertence à sua casa como você a conhecia. É uma entrada, uma de muitas que permitem acessar outros espaços do meu mundo.
Maria engoliu em seco.
— E eu tenho que atravessar?
— Só se você estiver disposta a cumprir o nosso pacto.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos. A inquietação se misturava à curiosidade.
— Eu estou com medo — admitiu —, mas sei que preciso fazer isso. Muita coisa está em jogo. Vai acontecer alguma coisa ruim comigo?
— Não. Esta experiência foi preparada para você. Atravesse sem medo.
Maria avançou até o limiar.
À medida que se aproximava, a porta foi perdendo a aparência sólida. A madeira escura ficou difusa, quase vaporosa, até se transformar numa névoa esbranquiçada que parecia respirar diante dela. Ao atravessá-la, sentiu na pele um formigamento estranho, suave, sem dor. Em seguida, a névoa começou a se dissipar.
Quando enfim conseguiu ver com clareza, ficou imóvel.
— Meu Deus… para onde me trouxeram?
Olhou ao redor, desconcertada.
— Este lugar… me parece familiar.
Aos poucos, as formas foram se organizando diante dos seus olhos.
— Claro… são meus colegas de trabalho. E aquele relógio… está marcando quase meio-dia.
A surpresa foi dando lugar ao reconhecimento.
— Estou no pátio interno envidraçado da casa de repouso. A essa hora, a gente costuma levar os velhinhos para tomar um pouco de sol e respirar ar de fora antes do almoço.
Maria deu alguns passos, ainda espantada.
— Estão aqui as plantas de sempre… Eu nunca tinha reparado nesse verde. Como elas estão bonitas. Que bem cuidadas.
A voz dela se suavizou.
— Assim os velhinhos aproveitam mais. Sempre fazia bem pra eles ficar aqui um pouco antes de comer. Acho que alguns esperavam por esse momento desde a hora em que acordavam.
Por alguns instantes, Maria se deixou envolver pela cena. Seus olhos percorreram as mesas, as cadeiras de rodas, os vasos, os rostos conhecidos. Tudo parecia tão real que ela quase conseguia sentir o cheiro da casa de repouso — aquela mistura de desinfetante, comida quente e colônia barata.
Então ela deu um passo na direção de uma das funcionárias.
— Ui, desculpa, Macarena! — exclamou de repente. — Quase tropecei em você. É que eu estou meio distraída.
Macarena não respondeu.
Nem sequer pareceu vê-la.
Maria franziu a testa.
— Macarena?
Nada.
A mulher continuou a tarefa como se Maria não existisse.
Intrigada, Maria se aproximou então de uma idosa sentada numa cadeira de rodas.
— Com licença, Macarena. Eu vou cumprimentar a Gertrudis, de quem muitas vezes eu cuidei.
Inclinou-se na direção da idosa e aproximou a boca do ouvido dela, sabendo que ela ouvia mal.
— Como a senhora está, dona Gertrudis? Dormiu bem esta noite? Ultimamente a senhora chamava a gente a qualquer hora.
A idosa também não respondeu.
Permaneceu imóvel, absorta, com o olhar perdido no céu que entrava pelo vidro.
Maria se endireitou devagar.
— Bom… já são duas que não me dão a menor atenção.
A voz dela ganhou um tom de inquietação.
— Isso está começando a me incomodar. Tem alguma coisa estranha aqui.
De repente, ela levantou a cabeça e viu Valeriano, um dos cuidadores mais antigos da casa de repouso. Ela gostava dele. Depois de anos trabalhando juntos, entre os dois tinha nascido uma amizade tranquila — dessas que surgem entre plantões longos, cansaço compartilhado e pequenos favores do dia a dia.
Maria deu um passo na direção dele.
Continua…

