AS TRÊS VIDAS DE MARIA (50) A casa da esquina

Maria manteve a cabeça ligeiramente inclinada. Tentava conter a indignação enquanto aqueles jovens continuavam provocando-a.

Um deles deu outra tragada e soltou uma gargalhada.

— Já sei qual é o seu problema. A senhora precisa de alguma coisa para se animar. Um pozinho mágico pelo nariz e vai ver como essa cara de velório desaparece.

Maria o encarou com profundo desprezo.

Outro rapaz, que até então permanecera perto da entrada, perdeu a paciência.

— Mas o que essa mulher está fazendo aqui? Chega, fica olhando e depois não compra nada. Senhora, circula. Não faça a gente perder tempo.

Ele se aproximou dela e ergueu o punho, fingindo que ia golpeá-la.

Maria reagiu imediatamente.

— Nem se atreva, seu sem-vergonha. Eu poderia ser sua mãe.

O rapaz abaixou lentamente o braço.

— Ei, eu ainda não fiz nada com a senhora.

— Ainda?

— Já está me enchendo o saco. Ou compra alguma coisa ou cai fora daqui agora mesmo.

Maria permaneceu imóvel.

Não era apenas medo o que sentia. Havia algo naquela cena que ela não conseguia compreender. Ángel a havia enviado até ali por algum motivo, e a cada segundo aumentava a sensação de que precisava resistir.

O jovem interpretou seu silêncio como uma provocação.

— A senhora me ouviu?

Ele lhe deu um forte empurrão nos ombros.

Maria perdeu o equilíbrio e caiu no asfalto.

— Seu animal! — gritou enquanto tentava se levantar. — Seu desgraçado!

A reação do rapaz foi imediata. Ele se aproximou e deu-lhe um chute no lado do corpo .

Maria ficou sem ar por alguns segundos.

— Vai à merda, sua maluca. E não volte mais aqui.

O jovem enfiou a mão no bolso e tirou um pequeno canivete.

Maria sentiu o sangue gelar quando ele aproximou a lâmina de seu pescoço.

— Da próxima vez, não vou me contentar em te empurrar.

Então uma voz grave surgiu do interior do prédio.

— Mas que diabos está acontecendo aí fora?

Todos se viraram.

— Por que vocês estão fazendo esse escândalo todo? Estou esperando o «chinês» com a mercadoria. Parem de chamar atenção.

Um jovem apareceu na porta.

Maria mal conseguia distingui-lo do chão.

— E o que essa mulher está fazendo aí caída? — perguntou ele.

— Tá maluca — respondeu o rapaz do canivete. — Não sei de onde saiu. Quando percebi, já estava aqui olhando o que a gente fazia. Não pede nada, não responde e, quando eu a empurrei, começou a me xingar feito louca.

— O que ela levou?

— Nada, Tony. Esse é justamente o problema.

Maria parou de respirar por um instante.

Tony.

O nome ecoou dentro de sua cabeça.

Ergueu lentamente os olhos.

— Como você disse? — murmurou.

Ninguém pareceu ouvi-la.

O jovem que acabara de sair do prédio se aproximou um pouco mais.

— Você é bruto demais, Raúl. Já te falei mil vezes: até aqui é preciso saber tratar a clientela.

— Clientela? Essa mulher está completamente maluca.

— Ou talvez esteja assustada.

Tony observou Maria atentamente.

— Olha para ela. Pode ser a primeira vez que vem aqui e não saiba como se comportar.

Depois se dirigiu diretamente a ela.

— Vamos, senhora. Levante-se.

Maria continuava olhando para ele do chão.

Algo dentro dela começara a se partir.

— Vamos — insistiu Tony. — Esses idiotas não entenderam a senhora. Desculpe por eles.

Fez um gesto para que ela entrasse.

— Venha comigo. Lá dentro poderá me explicar com calma o que precisa.

Continua…

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