— As leis funcionam assim, Maria. À medida que o aluno vai adquirindo experiência, vai sendo submetido a provas mais difíceis. É justo, não acha?
— Sim, é uma questão de bom senso. Tenho que te dizer que estou um pouco assustada, Ángel. Prometa que vou conseguir suportar esta prova sem desmoronar.
— Isso depende de você, mas eu te pergunto: o que eu ganharia se te submetesse a uma prova para a qual você não estivesse preparada? Seria ruim para nós dois.
Depois de alguns segundos em que Ángel fitou a mulher intensamente…
— Fique tranquila. Só peço que seja forte e direcione suas reflexões para o lugar certo. Então, vamos?
— Sim, só peço a Deus que me dê a força necessária.
— Deus é todo amor. Não tenha dúvida disso. Agora, vire-se e verá o corredor que deve percorrer. No final, você já sabe o que vai acontecer. Muita coragem, Maria.
— Obrigada por tudo, e que Deus nos abençoe — despediu-se a mulher com um leve sorriso.
Em seguida, embora apreensiva, ela deu os passos necessários até alcançar a interseção daquele corredor com o umbral que dava acesso a uma nova realidade. Sem perceber, ao atravessá-lo, fechou os olhos. Quando os abriu…
— Hã? Este cenário me parece familiar — comentou Maria em voz baixa. — Acho que já passei por aqui algumas vezes. Ah, já sei: esta é uma das esquinas do bairro, não muito longe da minha casa.
Depois de virar a cabeça várias vezes, tentando se situar e reconhecer o lugar, ficou pensativa.
— Claro, já sei. Aqui havia uma casa antiga enorme onde morava uma família grande. Não sei o que aconteceu, mas decidiram ir embora e, pouco depois de a casa ser abandonada, apareceram uns invasores. Lembro que houve alguns problemas com a polícia municipal e, no fim, tudo isso virou um refúgio para jovens pouco recomendáveis. Sim, andar por aqui pode ser perigoso, principalmente à noite. Mas, afinal, o que estou fazendo aqui? — perguntou-se, muito intrigada. — Além disso, nem sei que dia é hoje nem que horas são, embora, pelas sombras, pareça que a tarde já está bem avançada.
De repente, ouviu às suas costas uma voz em tom de advertência.
— Ei, senhora! Que merda a senhora está fazendo aí parada, olhando? O quê? Se perdeu? Anda, vá andando, este não é um bom lugar para ficar aí parada.
— Ha, ha… que imbecil — exclamou, rindo, outro dos rapazes na casa dos vinte que estavam em volta do prédio. — Vamos, se mexe! Cai fora daqui, e rapidinho! Vá para casa assistir a alguma novela na televisão.
— Ei! Já chega. Este é o meu bairro e tenho o direito de andar por onde eu quiser. Escuta, moleque, esta casa é sua?
— Olha só a gatinha, toda espertinha— disse o primeiro rapaz enquanto acendia um cigarro. — E ainda por cima é respondona. Espero que não esteja com as unhas afiadas, senão ainda vai arranhar meu rosto.
— Não vem bancar o espertinho — respondeu Maria com ousadia, como se pouco se importasse com o aspecto ameaçador daqueles jovens. — Não sei por que vim parar aqui e minha cabeça está doendo muito, mas deve haver algum motivo. E acho que você não é capaz de me explicar coisa nenhuma.
— Uuuhhh… caramba, olha a sabichona — comentou o outro, cheio de arrogância. — Acho que, quando alguém nem sabe por que está num lugar, o melhor é ficar em casa, bem protegida. Não acha?
Depois de percorrê-la dos pés à cabeça com um olhar atrevido, acrescentou:
— Olha, pensando bem, você nem é tão velha e até que não está nada mal. Já sei. Acho que o que você quer é um pouco de diversão. Vem cá, dá uma tragada neste baseado. Vai ver como vai te fazer bem. Sabe? Eu também estou a fim de curtir. Vem, mulherzinha, se anima, porque quanto mais olho para você, mais vontade me dá de me esfregar em você. Se quiser se divertir, é fácil. A gente entra na casa, fuma um pouco e depois, você sabe, a gente se pega.
Diante da indiferença no rosto de Maria, o rapaz pareceu se sentir ofendido.
— Ei, qual é! Você não vai ser uma dessas amarguradas, vai? — comentou enquanto se aproximava da mulher.
— Como é? O que você disse de mim? — respondeu ela, fazendo a pior cara de sua vida. — Moleque de merda, você não respeita nada nem ninguém. Não me admira: deve estar completamente chapado e nem sabe o que está dizendo. Além disso, eu não fumo.
Em poucos segundos, a situação ficou mais tensa. O rapaz colocou a mão na bochecha direita dela, quase com ternura, e, de surpresa, puxou-lhe os cabelos com força, causando-lhe dor.
— Olha só a madame — exclamou o primeiro rapaz com certa ironia. — Então, o que vai ser? Ah, claro, umas pilulazinhas, isso vai te fazer bem… e combina mais com o seu jeito. Nada de ficar tragando fumaça, mas umas pílulas para dar uma animada. O quê? Não me olhe assim. Então, que tal uns calmantes para dormir umas horinhas e esquecer os probleminhas?
Maria olhava para o rapaz com desprezo, balançando a cabeça, como se não conseguisse acreditar na realidade daquele cenário deprimente em que havia sido lançada.
— Ah, agora saquei. Quer umas coloridinhas? Claro, conheceu um cara novo e quer ter uns momentos de glória. Bom, se dividir com ele, a transa está garantida. O quê? Faz tempo que você não se agarra com um gostosão?
Continua…
