Maria continuou caminhando com uma sensação cada vez mais incômoda.
A conversa com Tony tinha deixado uma ideia cravada em seus pensamentos: as decisões nunca terminam em nós mesmos. Elas se estendem aos outros, como ondas sobre a água. Ações-consequências.
Duas palavras simples que agora adquiriam um peso insuportável.
Não era a dor física o que mais a castigava. Era algo mais profundo, uma espécie de penitência interior que parecia envolvê-la por completo.
E, mesmo assim, em meio a tanta angústia surgiu um pensamento capaz de lhe proporcionar um instante de esperança. Tony tinha pedido que ela voltasse no dia seguinte. Ela o veria novamente. Só essa possibilidade conseguiu arrancar-lhe um sorriso fugaz.
Quase sem perceber, chegou à rua onde tinha vivido durante tantos anos. Parou na calçada em frente. Lá estava o prédio. A mesma entrada. As mesmas sacadas. O mesmo pequeno terraço.
Mas alguma coisa parecia diferente. Maria permaneceu imóvel, observando com atenção.
Então uma jovem apareceu no terraço de seu antigo apartamento. Trouxe um varal e começou a pendurar algumas roupas.
Maria sentiu um sobressalto.
— Quem será?
Durante alguns segundos, permitiu-se imaginar uma possibilidade.
A namorada de Tony? Será que seu filho ainda morava ali?
A ideia chegou até a animá-la, mas a resposta veio logo em seguida.
Um homem de uns trinta anos apareceu atrás da moça, envolveu-a com os braços e lhe deu um beijo no pescoço. Os dois sorriram.
Maria sentiu algo se quebrar dentro dela. Aquelas pessoas não tinham nenhuma relação com Tony. Eram desconhecidos. Sua casa já não era sua casa.
Permaneceu observando a cena, incapaz de desviar o olhar. Cinco anos. Apenas cinco anos e, no entanto, tudo parecia ter continuado sem ela. Outros dormiam em seu quarto. Outros preparavam a comida em sua cozinha. Outros saíam para aquele terraço. Outros enchiam de conversas os cômodos onde ela tinha criado o filho.
Maria baixou a cabeça. A rua continuava ali, e o prédio também. Mas já não lhe pertenciam. Era como despertar depois de um coma prolongado e descobrir que o mundo tinha continuado girando enquanto a própria pessoa permanecia imóvel.
— A vida segue… — murmurou.
As palavras de Tony voltaram à sua memória.
De repente, algo chamou sua atenção. Uma mulher se aproximava da entrada do prédio. Maria a reconheceu imediatamente.
— Merche…
Era a vizinha do primeiro andar. Durante anos tinham se cruzado na escada, no elevador e em pequenas conversas do dia a dia. Nunca tinham sido amigas íntimas, mas mantinham uma relação cordial.
Maria sentiu uma necessidade imediata de se aproximar. Precisava de respostas.
Atravessou a rua.
— Senhora! Com licença!
Merche se virou.
— Sim? O que a senhora quer?
Maria ficou olhando para ela.
— Desculpe… a senhora se lembra de mim?
A mulher franziu a testa.
— De você?
Observou-a atentamente.
— Não. Por que eu deveria me lembrar? Nós nos conhecemos?
Maria sentiu outra pontada. Claro. Aquilo fazia parte da prova. Não podia se apresentar como quem realmente era.
— Não, desculpe. Eu me expliquei mal.
Respirou fundo.
— A senhora é Merche e mora no primeiro andar, não é?
A mulher deu um passo para trás.
— Sim.
Sua expressão mudou.
— Como sabe o meu nome?
— Eu era amiga de Maria, a mulher que morava lá em cima.
Merche arregalou ligeiramente os olhos.
— Maria?
— Sim. Nós conversávamos muito e, uma vez ou outra, ela me contava coisas sobre os vizinhos.
A outra mulher relaxou a expressão.
— Ah, agora entendi.
Depois balançou a cabeça.
— Pobre Maria.
Aquelas duas palavras fizeram a própria Maria estremecer.
— Imagino que a senhora saiba como tudo terminou.
Maria assentiu.
— Me contaram que ela morreu.
— Ela se enforcou.
Merche pronunciou a frase com naturalidade. Maria sentiu o ar lhe faltar.
— Já faz uns cinco anos.
— Sim… foi o que me disseram.
A mulher ergueu os olhos para seu antigo apartamento.
— Fazia muito tempo que eu não passava por aqui. Quando vi o prédio, muitas lembranças me vieram à cabeça.
Merche suspirou.
— Foi uma história muito triste.
Maria hesitou por alguns instantes.
— Ela estava realmente tão mal assim?
— Não saberia dizer.
A vizinha olhou para a fachada.
— Há pessoas que guardam muita coisa dentro de si e os outros nem percebem.
Maria sentiu que aquelas palavras se aproximavam perigosamente da verdade.
— Talvez ela tenha tido azar — acrescentou Merche.
— Azar?
— O marido dela tinha morrido atropelado alguns anos antes.
— Sim, eu sei.
— Aquilo deve ter mexido muito com ela.
Merche fez uma pausa.
— Maria também não era de sair contando seus problemas por aí. Era bastante reservada.
— Talvez precisasse desabafar e não soubesse como.
— Pode ser.
A vizinha ficou pensativa.
— Mas, se quer saber o que eu realmente penso…
Maria teve um mau pressentimento.
— Pode dizer.
Merche olhou diretamente para ela.
— Acho que ela foi covarde.
Continua…
