AS TRÊS VIDAS DE MARIA (20) A chave de tudo

— Está vendo, Maria? É só ir um pouco mais fundo nas pessoas. Não precisa esperar morrer para fazer amizades ou criar intimidade com alguém, por mais velha que essa pessoa seja. A gente poderia ter tido esta conversa muito antes.

Maria baixou o olhar. Pela primeira vez, se perguntou se não tinha desperdiçado uma oportunidade valiosa. Durante anos, trabalhou ao lado de Ana, cuidando dela com dedicação, mas jamais se permitiu abrir o coração o bastante para buscar nela o consolo de que tanto precisava.

— Eu insisto, mesmo que eu pareça repetitiva: de todas as cuidadoras que trabalham aqui, você sempre foi a minha favorita. E agora ficou provado que eu não me enganei. Não é?

A idosa a olhou com carinho.

— Dona Ana, eu agradeço de coração tudo o que a senhora está me dizendo.

— Agora você já conhece a minha história e tudo o que eu precisei suportar. Se você tivesse me contado nem que fosse uma pequena parte das dificuldades que estava atravessando, eu teria te ouvido. E tenho certeza de que teria tentado te ajudar. A gente vive tão cheia de feridas, vazios e preocupações, que desabafar não é luxo; é necessidade.

Maria assentiu devagar.

— Sim. Parece mentira, mas foi quando eu decidi renunciar à vida que comecei a entender melhor certas coisas. Eu também entendo que existem situações extremas em que uma pessoa pode se sentir empurrada a tomar decisões desesperadas das quais, depois, poderia se arrepender.

— Então você mesma está reconhecendo que se enforcar talvez não tenha sido a melhor decisão.

Maria ficou alguns segundos em silêncio.

— Eu não sei, Ana. Eu me sinto muito confusa.

A idosa refletiu por um instante antes de continuar.

— Vou te dizer mais uma coisa. Eu nunca consegui perdoar o meu marido por ter se suicidado. Ele me deixou sozinha quando eu mais precisava da companhia dele. Numa idade difícil, depois de tudo o que a gente tinha sofrido. Para mim, foi uma decisão profundamente egoísta.

Maria escutava com atenção.

— Eu nunca duvidei do sofrimento dele. A morte do Alberto o mudou para sempre. Aquela tragédia azedou o caráter dele e encheu a consciência de sombras. Mas uma coisa não justifica a outra.

Ela suspirou.

— Com o quanto ele gostava de falar de honra, dever e coragem dos militares… e, no entanto, depois de perder o nosso filho, foi renunciando, aos poucos, a todos aqueles ideais que tinham guiado a vida dele. Quando uma pessoa deixa de acreditar naquilo que dava sentido à sua existência, fica triste, pessimista e acaba se afastando da vontade de viver.

A idosa ficou em silêncio por alguns segundos.

— Quando eu abri aquele cofre e vi que a pistola não estava lá, eu não precisei pensar em mais nada. Eu soube, na mesma hora, o que tinha acontecido.

Maria percebeu a emoção voltar à voz daquela mulher.

— Já se passaram muitos anos desde então e, mesmo assim, eu ainda me pergunto como seria possível reparar o estrago que ele me causou. Faltava o mais importante, que era o Alberto, sim. Mas, pelo menos, a gente ainda tinha um ao outro. A gente poderia ter se apoiado.

Os olhos dela se umedeceram.

— É justamente nos momentos mais difíceis que a solidariedade se torna mais necessária. Sobretudo dentro de um casal.

A idosa sorriu com certa tristeza.

— Ainda me surpreende ter sobrevivido a tanta solidão. Eu devo ser mais forte do que eu imaginava.

— Essa é a chave, dona Ana: a sua força — respondeu Maria, com admiração sincera.

Ana assentiu.

— Eu não tenho nenhuma dúvida de que existe outra vida. A aparição do meu filho foi suficiente para me convencer. Até a sua presença aqui é mais uma prova disso.

A expressão dela ficou séria.

— E é justamente por isso que eu não acho que o suicídio seja uma boa solução para acabar com o sofrimento. Eu não acredito que o meu marido esteja melhor por ter tomado aquela decisão, nem que todos os problemas dele tenham desaparecido de uma vez.

Maria a escutava sem desviar o olhar.

— Se Deus nos dá a vida para aprender e avançar, quem somos nós para interromper esse processo? Não pode ser uma decisão sem consequências.

Ela respirou fundo.

— Muitas vezes eu me perguntei por que ele não compartilhou comigo toda aquela dor que carregava por dentro. Por que não me deixou ajudá-lo? Por que não pensou na situação em que me deixaria? Por que não confiou em mim?

Depois de um longo suspiro, a idosa sorriu, um pouco envergonhada.

— Olha só… já estou falando demais outra vez. Você percebe, não percebe? A gente precisa tanto desabafar que, no fim, eu volto a contar as minhas próprias batalhas.

— Não diga isso — respondeu Maria, comovida. — A senhora não imagina o quanto as suas palavras estão me ajudando. De algum modo, eu sinto que os nossos caminhos têm muito em comum.

Ficou em silêncio por um instante, antes de continuar:

— Talvez eu também carregue uma parte de tudo isso desde muito antes da morte do Antonio. A minha mãe sofria de depressões, e eu sempre pensei que algo daquela tristeza acabou passando para mim.

Ana a observou com atenção.

— Ela também se suicidou?

— Não. Ela morreu relativamente jovem, por causa de um câncer muito agressivo. Mas eu me lembro de muitas coisas da minha infância. Eu me lembro do jeito dela de enfrentar os problemas, das derrotas, do desânimo…

Maria baixou os olhos.

— Às vezes eu me pergunto se eu aprendi bem demais aquelas lições.

— Não estou te acompanhando.

— Quero dizer que eu sempre fui uma pessoa insegura, acanhada. Diante dos primeiros obstáculos, eu tendia a desistir. Quando as coisas se complicavam, em vez de lutar, eu me fechava em mim mesma.

Maria ficou pensativa.

— Agora, olhando com um pouco mais de perspectiva, eu acho que aprendi parte desse jeito de reagir observando a minha mãe. Talvez aí esteja uma das chaves de tudo isso. Eu aprendi cedo demais a jogar a toalha e a me afundar na minha angústia.

A idosa a contemplou em silêncio.

E, pela primeira vez desde o início daquela conversa, Maria teve a sensação de que não estava analisando apenas o próprio sofrimento… mas também a si mesma.

Continua…

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