— Veja, Maria… a verdade é que meu filho e eu não chegamos a conversar. Ele se comunicou comigo pelo olhar.
— Como assim?
— Quero dizer que a gente não precisava de palavras para se entender. O sorriso dele, tão profundo e sereno, me fez compreender que ele estava bem e que as minhas súplicas para ter notícias do Alberto tinham sido ouvidas no céu.
A idosa sorriu com doçura, como se contemplasse uma imagem invisível suspensa à sua frente.
— Meu filho veio me dizer que deixou este plano cedo porque esse era o destino dele: viver apenas até a juventude para depois voltar à vida espiritual — aquela que permanece fora daqui e que, ao mesmo tempo, é a vida verdadeira.
Maria sentiu uma emoção intensa subir do peito.
— Foi só isso, Ana? — perguntou, com lágrimas brilhando nos olhos. — Eu estou tão emocionada…
— Não foi muito o que a gente compartilhou e, ainda assim, foi tudo ao mesmo tempo. Grandioso, minha querida. Pelo menos foi assim que eu vivi.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos.
— Você sabe o que significa voltar a ver a criatura que você mais amou na vida? É um presente impossível de medir, algo sem preço.
A voz da idosa vacilou levemente.
— Antes de ir embora, ele me deixou uma mensagem de esperança. Prometeu que, quando chegasse a minha hora, viria me buscar.
Maria levou a mão ao peito.
— Ufa, dona Ana… a senhora me deixa sem palavras. O Alberto não só lhe transmitiu que estava bem, como ainda prometeu esperá-la quando chegasse o fim do caminho.
Depois de alguns segundos de reflexão, a idosa assentiu devagar.
— Foi assim e assim continua sendo para mim, Maria. A felicidade daquele encontro não tem comparação. Desde então, eu vivo esperando o dia em que vou vê-lo de novo, abraçá-lo e poder falar com ele outra vez.
Um sorriso nostálgico surgiu no rosto dela.
— Eu jamais vou esquecer aquela poltrona, aquele quarto, aquela tarde.
Então baixou um pouco a voz.
— E vou te confessar mais uma coisa: desde aquele dia, e só de vez em quando, eu vejo alguns espíritos… como se alguma coisa dentro de mim tivesse despertado depois daquela experiência.
Maria ficou alguns instantes em silêncio.
— Acho que começo a entender — disse, pensativa. — É como se aquela vivência tivesse ativado algo na senhora. Talvez tenha sido uma compensação por tudo o que sofreu.
— Não sei, minha filha. E também não me obceco com isso. E, claro, não falo desse assunto com ninguém.
Ela sorriu, com uma ponta de ironia.
— Além do mais, quem me cerca já tem uma explicação pronta: a idade, a imaginação, a perda das faculdades… tudo serve.
— Sim, isso costuma acontecer.
A idosa estendeu a mão e acariciou com ternura a de Maria.
— É por isso que hoje a gente consegue conversar. Eu posso te perceber e sei como você se sente. E tem mais uma coisa: estes cinco anos juntas criaram uma confiança muito especial entre nós.
Maria apertou de leve aquela mão envelhecida.
— A senhora não imagina como eu fico feliz por ter cuidado da senhora.
Dona Ana lhe devolveu um olhar carregado de afeto e gratidão.
Depois de alguns segundos de calma, ela retomou:
— Bem, minha querida, já falamos bastante de mim. Agora é a sua vez.
— Como assim? — perguntou Maria, surpresa. — Eu?
— Claro. Eu não sou uma velha egoísta que só gosta de falar dos próprios problemas. Agora é o seu momento.
A idosa fez uma pequena pausa.
— Mas antes eu quero te revelar uma coisa.
Maria arqueou as sobrancelhas.
— O que foi, dona Ana?
Então a mulher ergueu lentamente a mão e apontou para trás de Maria.
— Atrás de você tem um homem impecavelmente vestido. Muito elegante. Deve ter por volta de cinquenta anos.
Maria ficou imóvel.
— Mas eu não estou vendo nada.
— Ele está com um terno branco cru e uma camisa tão perfeita que parece recém-passada. O cabelo é grisalho, muito bem cuidado e…
A idosa sorriu de repente.
— Olha… agora mesmo ele acabou de sorrir pra mim. Parece simpático.
Maria virou o rosto num movimento brusco.
— Sim… acho que eu sei quem é.
— Como assim? — perguntou Ana, estranhando.
— Uma pergunta, dona Ana: ele tem olhos cinzentos e a pele bem clara?
— Exatamente. Mas espera um pouco, menina… você não tinha acabado de dizer que não conseguia vê-lo?
Maria deixou escapar um sorrisinho.
— Digamos que eu o conheço faz pouco tempo e, pelo visto, agora ele resolveu fazer charme.
A idosa soltou uma risada curta.
— Pois é um jeito bem estranho de se apresentar.
— É uma presença tranquila. Amigável. Há pouco a gente conversou e… como eu diria… ele está empenhado em me convencer a voltar para o meu corpo.
Maria suspirou.
— E eu acho que ele tem pela frente um trabalho bem complicado comigo.
Ana a olhou, confusa.
— Agora eu me perdi de vez. Acho que sou eu que preciso de explicações.
Ela sorriu com doçura.
— Vamos, Maria. Me conte como você chegou até aqui.
Maria baixou o olhar devagar.
— É uma história longa… e muito triste.
Continua…
