AS TRÊS VIDAS DE MARIA (17) O sopro no rosto

— Não sei quantas vezes tentei ligar para ele — continuou dona Ana, com a emoção à flor da voz. — Uma vez atrás da outra, eu ouvia sempre a mesma mensagem: “não está disponível”.

Baixou o olhar.

— E, justo quando a minha preocupação estava chegando ao limite, o telefone tocou.

Maria permanecia imóvel, atenta a cada palavra.

— Foi então que eu entendi que o meu marido não tinha se encontrado com nenhum dos antigos companheiros. Disseram-me que ele tinha se hospedado num quarto de hotel nos arredores da cidade e que, isolando-se do barulho do mundo, tinha decidido tirar a própria vida com um tiro.

Maria ficou petrificada.

O impacto foi tão grande que ela levou a mão à boca e, por alguns segundos, não encontrou palavras.

— Meu Deus, Ana… sinto muito — murmurou enfim, antes de abraçá-la com ternura.

A idosa aceitou o gesto, sem tirar os olhos do chão.

— Isso já faz mais de vinte e cinco anos.

— É inacreditável. Uma família marcada por uma tragédia assim, e pensar que vocês chegaram a ser tão felizes.

— Sim. Eu pensei nisso mil vezes. Mil. E nunca conseguia encontrar uma explicação. Quem pode saber o que o futuro lhe reserva?

— Ainda bem que ninguém — respondeu Maria. — Acho que seria uma desgraça saber o nosso destino. Eu acabaria ficando louca.

Maria sentiu uma compaixão profunda por aquela mulher.

Quem imaginaria que, por trás daquele aspecto doce e venerável, se escondia uma existência tecida de dor? Quem suspeitaria que duas perdas poderiam rasgar, daquele jeito, a vida de alguém?

Entre as duas se instalou um silêncio morno, um instante de compreensão que dispensava palavras.

Depois de alguns segundos…

— Espere, Maria. Eu ainda não lhe contei o mais importante.

Maria arregalou os olhos, surpresa.

— Como assim? Ainda tem mais?

— Tem — respondeu Ana, serena. — E agora você vai entender por que justamente eu e você estamos conversando.

— Eu preciso admitir: me deixa abalada ouvir a senhora. A senhora é um verdadeiro poço de sabedoria.

A idosa sorriu, melancólica.

— Eu sofri muito. Depois da morte do meu marido veio a minha aposentadoria. Depois de trinta e cinco anos trabalhando como professora, tinha chegado a hora do descanso.

Maria negou de leve com a cabeça.

— Às vezes eu me pergunto para que serve o descanso quando a gente perdeu o que mais amava.

— Com tanto tempo livre, eu comecei a olhar para dentro. Eu sempre fui uma mulher de fé; rezava muito, sobretudo quando a vida me golpeava. Eu pedia tanta coisa a Deus que até Ele mesmo teria acabado cansado de me ouvir.

Ela sorriu, de leve.

— Mas, depois de tudo aquilo, eu parei de pedir tanta coisa. Eu me concentrei numa só.

— O que era que a senhora desejava tanto?

A idosa ergueu os olhos.

— Eu queria saber algo do meu filho. A qualquer preço.

A voz dela ganhou outra profundidade.

— Veja, Maria: um marido é alguém que a vida coloca no seu caminho para compartilhar anos, experiências e lembranças. Mas um filho… um filho é diferente. Você o carrega dentro de si por nove meses; ele cresce sob o seu coração antes mesmo de você conhecer o rosto dele. Ele sai das suas entranhas e fica ligado a você para sempre. É um vínculo que não cabe em explicação nenhuma.

Maria assentiu em silêncio.

— Por que o meu marido me deixou sozinha? Eu nunca vou saber ao certo. Mas não é difícil pensar que ele vivia consumido por uma culpa que não o deixava respirar. Ninguém se mata com um tiro sem que algo tenha se quebrado muito antes por dentro.

Ela ficou em silêncio por alguns segundos.

— A vida pode ser bonita, Maria… mas, às vezes, tudo fica tão escuro… Há pesos que vão desgastando a gente aos poucos, até romper o fio que nos mantém presos à existência. E ele carregou anos demais de sofrimento em silêncio.

Baixou a cabeça devagar.

— Acho que ele já estava morto muito antes de puxar o gatilho.

Maria sentiu um nó na garganta.

— Eu entendo a senhora. Eu também perdi o meu marido faz uns cinco anos e sei o vazio que uma ausência assim deixa. Graças a Deus, o meu filho ainda está comigo.

Dona Ana a olhou com doçura.

— Então seja grata e cuide de quem ainda precisa de você.

Maria ficou calada.

Aquelas palavras pareceram ficar suspensas dentro dela.

A idosa retomou o relato:

— Um dia aconteceu algo impossível de explicar. Depois de milhares de orações, eu estava em casa. Na noite anterior eu mal tinha dormido e, depois do almoço, resolvi me distrair um pouco. Eu me sentei numa velha cadeira de balanço que tinha na salinha e comecei a tricotar.

Os olhos dela pareceram se iluminar.

— Não me pergunte como nem por quê. Depois de um tempo, eu entrei naquele estado estranho em que você não sabe se está acordada ou dormindo. De repente, senti uma brisa fresca no rosto.

Maria escutava sem se mexer.

— Aquilo me fez reagir. Eu abri os olhos e, então, aconteceu a coisa mais extraordinária que eu tinha vivido desde o nascimento do meu filho.

— O que aconteceu? — perguntou Maria, ansiosa.

Um sorriso cheio de ternura surgiu devagar nos lábios de Ana.

— O Alberto estava ali.

A voz dela mal passou de um sussurro.

— Bem diante de mim. Tão jovem, tão bonito como sempre. Ele me olhava com um carinho impossível de descrever… e eu me senti tão tomada por aquilo que as lágrimas começaram a cair sem controle.

Ela respirou fundo.

— Eu comecei a arfar como uma menininha.

— Mas… — interrompeu Maria, apertando com cuidado o pulso da idosa — a senhora falou com ele? Ele disse alguma coisa? Conte, por favor.

Ana soltou uma risadinha cansada.

— Calma, mulher. Deixa-me respirar.

E, por alguns segundos, ficou em silêncio, tentando organizar as lembranças que se atropelavam na sua mente.

Continua…

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