— Claro — respondeu Maria, com um leve sorriso. — Eu adorei essa história. E, sempre que fazem uma nova versão no cinema, eu procuro assistir. É um relato… — hesitou por um instante — tão comovente que sempre me remexe por dentro. Acho que é uma dessas histórias que nunca envelhecem.
— Concordo com você — assentiu Ángel. — Lembre-se de que o protagonista, Ebenezer Scrooge, enfrenta uma série de provas com a visita de três espíritos.
Maria reagiu com um lampejo de entusiasmo.
— Claro! — interrompeu. — O do Natal passado, o do Natal presente e o do Natal futuro.
— Exatamente — confirmou ele. — Embora, no seu caso, não vá ser igual. Você vai se deparar com três cenários diferentes. Em cada um deles, aparecerão pessoas importantes na sua vida. Você vai interagir com elas… e, a partir daí, vai tirar as suas próprias conclusões.
Maria ficou em silêncio. A explicação parecia simples… talvez simples demais.
— É só isso? — perguntou, por fim, com uma careta discreta. — Desculpa eu dizer, mas eu esperava algo mais… complicado.
Deu de ombros.
— Sei lá… algo mais difícil.
Ángel a observou com calma.
— Você foi rápida demais para julgar.
Maria franziu a testa.
— Você se lembra se o Scrooge aproveitou a viagem?
Ela levou a mão ao rosto, pensativa.
— Agora que você falou… não. De jeito nenhum. Na verdade… ele sofreu bastante.
Um arrepio correu pelo corpo dela.
— Acho que eu me precipitei. Sim… eu reconheço. Fui arrogante.
Abraçou-se de leve.
— Eu não sei por quê… mas, de repente, eu fiquei nervosa.
Ángel assentiu, como se aquilo fosse esperado.
— Você está começando a entender.
Maria engoliu em seco.
— Me diz… vai acontecer alguma coisa ruim comigo? Não me assusta…
Ángel negou de leve.
— Não é uma questão de “bom” ou “ruim”, Maria.
Ela franziu a testa, desconcertada.
— Como assim, não?
— Esse jeito de pensar pertence ao seu mundo — explicou ele. — Aqui… essas categorias ficam pequenas.
Fez uma breve pausa, procurando as palavras.
— Nós avaliamos as experiências de outro modo: pelo que faz você avançar… ou pelo que faz estagnar.
Maria o encarou com atenção.
— Avançar… para quê?
— Para a sua evolução — respondeu, com serenidade. — Tudo o que você pensa, sente ou faz pode te ajudar a crescer… ou pode te travar.
Ela assentiu devagar.
— Acho que entendi.
Esboçou um sorriso discreto, com um toque de ironia.
— Imagino que eu vou ter que me acostumar… a este “mundo novo”.
— Não se preocupe — respondeu ele. — É normal. O importante é levar este processo a sério. O que você vai viver não é uma simples passagem. É uma oportunidade.
Inclinou-se levemente na direção dela.
— E, no final… você decide.
Maria ficou em silêncio por alguns segundos. Desta vez, não havia resistência, e sim reflexão. Respirou fundo.
— Está bem.
Olhou-o de frente.
— Estou nervosa… mas também estou com vontade de começar.
A voz dela ficou mais sincera.
— É estranho… como se uma parte de mim tivesse medo… e outra precisasse disso. Acho que eu preciso me arriscar.
Fechou os olhos por um instante e sorriu.
— Está bem, Ángel. Você me convenceu.
Abriu-os de novo.
— Vamos lá. Que seja o que tiver que ser, o que Deus quiser.
— Assim será.
Fez uma pequena pausa.
— Sempre é.
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— Bem, doutor… está tudo bem até aqui?
A voz de Maria trouxe a cena de volta ao consultório.
— Vejo que o senhor está fazendo anotações — continuou. — Eu queria saber o que o senhor está achando de tudo isso. Se não se importar, vou fazer uma pausa rápida. Preciso beber um pouco de água.
O psicólogo pousou a caneta sobre o caderno.
— Acho uma excelente ideia — respondeu.
Observou-a com interesse.
— Confesso que o tempo está passando voando. Tudo o que a senhora está me contando é… fascinante.
Fez uma breve pausa antes de continuar.
— Como a senhora deve imaginar, não é comum um paciente me descrever com tanto detalhe não apenas uma tentativa de suicídio, mas também aquilo que a senhora chama de uma experiência posterior a esse fato.
Maria o olhou com curiosidade.
— Imagino que o senhor já tenha atendido casos parecidos.
O psicólogo assentiu.
— Já atendi muitos pacientes com ideação suicida. A depressão, infelizmente, é cada vez mais frequente. É como carregar uma mochila que fica mais pesada a cada dia… até que a pessoa quer se livrar dela a qualquer preço.
Maria baixou o olhar por um instante.
— Então… o que é que o surpreende?
O psicólogo a encarou.
— A natureza do seu relato. Não estamos falando apenas de uma tentativa autodestrutiva… e sim de algo que a senhora descreve como uma experiência espiritual que acompanha esse processo. E isso… é novo para mim.
Inclinou-se um pouco para a frente.
— Em todos estes anos, eu nunca tinha ouvido algo assim. Por isso lhe digo: o que a senhora está contando é… avassalador.
Continua…
