Durante alguns segundos, nenhum dos dois falou.
Antonio contemplou Maria com uma expressão muito diferente daquela do homem que ela havia conhecido em vida. Havia algo mais sereno em seus olhos, mas também uma fragilidade que ele nunca lhe mostrara.
— Maria, acho que chegou a hora de te dizer uma coisa.
— Pode falar.
— Vim até aqui para fazer as pazes com você.
Ela permaneceu imóvel.
— Se eu tivesse de resumir todo este encontro em uma única frase — continuou Antonio —, seria essa. Você precisava conhecer a verdade, e eu precisava contá-la.
Maria baixou o olhar.
— Por mais dolorosa que fosse.
— Justamente por isso.
Antonio respirou fundo.
— Durante anos vivi cercado de mentiras. Mentia sobre meus horários, sobre o dinheiro, sobre o Ícaro, sobre as mulheres, sobre as drogas… E todas aquelas mentiras acabaram prejudicando você e também Tony.
Ficou em silêncio por alguns instantes.
— Mas compreendi algo mais.
— O quê?
— Que a primeira vítima dos meus enganos fui eu mesmo.
Maria franziu ligeiramente a testa.
— Não pretendo diminuir a importância do que causei a vocês — esclareceu imediatamente —. Pelo contrário. Mas agora compreendo que, quando alguém vive enganando os outros, acaba construindo uma prisão para si mesmo.
Antonio apontou para o próprio peito.
— Era eu quem estava desperdiçando a minha própria existência.
Sua voz começou a falhar.
— Eu nem sequer havia completado quarenta anos, Maria.
Ela percebeu imediatamente a mudança.
— Antonio…
— Não. Deixe-me dizer.
Respirou fundo, tentando se conter.
— Joguei minha vida fora.
A frase saiu com dificuldade.
— É isso que ainda me custa aceitar. Tive uma oportunidade extraordinária: uma família, um filho, uma mulher que me amava, anos e anos pela frente…
Antonio fechou os olhos.
— E troquei tudo isso por noites vazias, por sexo, por álcool, por drogas, por me sentir importante durante algumas horas.
Uma lágrima escorreu por seu rosto.
— Com todos os anos que poderíamos ter desfrutado juntos…
Já não conseguiu continuar. Cobriu o rosto com as duas mãos e começou a chorar. Não era um choro contido nem silencioso. Antonio chorava como alguém que tivesse conseguido manter uma barragem fechada por tempo demais e já não pudesse conter a água.
Maria sentiu algo se remexer dentro dela. Havia desejado repreendê-lo por tantas coisas. Chegara até a imaginar a satisfação que sentiria ao vê-lo reconhecer seus erros. Mas contemplá-lo daquela maneira não lhe proporcionou prazer algum. Sentiu apenas compaixão.
Instintivamente, quis se aproximar para abraçá-lo, embora se lembrasse de que aquele contato continuava impossível. Sua mão parou no meio do caminho.
— Antonio…
Ele conseguiu se acalmar aos poucos.
— Perdi aquela oportunidade — continuou entre lágrimas —. Refugiei-me no sexo descontrolado e na falsa segurança das drogas. Mas já não posso passar o resto da minha existência lamentando o que poderia ter sido e não foi.
Maria se lembrou de suas próprias palavras.
— Reconstruir-se.
Antonio ergueu o olhar.
— Exatamente.
Enxugou os olhos.
— Durante muito tempo senti raiva de mim mesmo. Eu me desprezava. Perguntava-me repetidas vezes como tinha podido ser tão estúpido.
— Imagino que isso também não ajudasse muito.
— Em nada.
Antonio negou com a cabeça.
— Fustigar-se constantemente também pode se transformar em outra forma de egoísmo. Você continua pensando exclusivamente em si mesmo, ainda que seja para se odiar.
Maria refletiu sobre aquilo.
— Agora tento fazer outra coisa — continuou ele —. Aprender. Melhorar. Preparar-me. Cumprir as tarefas que me atribuem.
— Suas famosas práticas.
— Minhas famosas práticas.
Os dois sorriram.
— Nem sequer pergunto quanto falta para terminar este processo. Antes, com certeza, eu teria exigido datas, prazos e garantias.
— Isso, sim, se parece muito com o Antonio que eu conheci.
— Pois é.
Antonio deu de ombros.
— Agora confio em quem está me ajudando. Se consideram que ainda preciso de tempo, é porque preciso. Prefiro avançar devagar e com segurança.
Maria o olhou com certa ternura.
— Fico feliz por você. De verdade.
Depois fez uma leve careta.
— Embora eu continue achando que cinco anos são muitos. Por mais que você possa passear por uma mistura de Versalhes com o Generalife, cinco anos continuam sendo cinco anos.
Antonio sorriu.
— Lembra do que conversamos no início?
— Que aqui o tempo funciona de outra maneira.
— Isso mesmo.
Antonio olhou para a escuridão da noite, como se tentasse encontrar as palavras certas.
— Sei que, para você, passaram-se cinco anos. Você os contou dia após dia, aniversário após aniversário, Natal após Natal.
Maria baixou o olhar.
— Foi assim.
— Mas eu não tenho essa mesma sensação. Não saberia dizer quanto tempo sinto que passou.
— Menos?
— Acho que sim, embora também não soubesse medir.
Antonio fez um gesto de impotência.
— Nossos mundos se parecem em muitas coisas, mas são diferentes. E suspeito que o tempo seja uma dessas diferenças difíceis de explicar a partir da perspectiva de vocês.
— Então, para você, esses cinco anos poderiam ter sido…
— Não sei, Maria. E prefiro não inventar uma resposta.
Ela assentiu.
— Acho justo.
Houve outra pausa.
Até aquele momento, Maria havia escutado Antonio falar de si mesmo, de sua morte, de seus erros e daquela estranha existência posterior.
Mas havia vários minutos que uma pergunta abria caminho dentro dela.
— Antonio… desculpe se agora estou sendo um pouco egoísta.
Sua expressão havia adquirido uma nova gravidade.
— Agora sou eu que preciso de ajuda.
Antonio endireitou ligeiramente o corpo.
— Diga.
— Tudo isso mexeu muito comigo por dentro.
Maria procurou as palavras.
— A conversa com dona Ana, o que vivi com você, descobrir a verdade sobre nossa vida… São coisas demais.
— Eu entendo.
— Não tenho certeza de que eu mesma entenda.
Maria olhou para seu antigo marido.
— Mas tenho a sensação de que esta conversa pode mudar minha vida.
Antonio permaneceu calado.
— Por isso quero te perguntar uma coisa.
Maria respirou fundo.
— O que você acha que vai ser de mim quando tudo isso terminar?
Antonio a contemplou com atenção.
Ela continuou:
— Você já passou pelo seu processo. Teve tempo para pensar, para se equivocar até mesmo depois de morto, para aprender…
Sua voz ficou mais fraca.
— Eu, ao contrário, tenho um corpo em algum lugar que talvez ainda possa recuperar.
A frase fez com que ambos se lembrassem de repente da verdadeira situação.
— Diga, Antonio. Depois de tudo o que conversamos esta noite… o que você acha que devo fazer?
Continua…
