AS TRÊS VIDAS DE MARIA (11) O desafio da alma

— Me confundir? Eu? — retrucou Maria, levando os dedos ao peito. — Não se engane. Quanto mais tempo eu passo aqui, mais convencida eu fico de que me enforcar foi a melhor decisão que tomei em anos. Eu não acho que aquele corpo pendurado no quartinho da limpeza vá demorar muito para dar o último suspiro.

Ángel a observou sem se alterar.

— Era a isso que eu me referia — respondeu com calma. — Talvez você esteja alongando esta conversa para se certificar de que tudo terminou… para se convencer de que já não há volta.

Esboçou um leve sorriso.

— Maria, sinto em desapontá-la. Nesta dimensão, o tempo não funciona como você conhece. Ele pode se contrair… ou se dilatar. Não vou entrar em detalhes, mas o que para você pode parecer horas, para o seu corpo mal são instantes.

Maria franziu a testa.

— Vou te dar o benefício da dúvida — disse, por fim. — Mas o que você acabou de dizer soa como ameaça… ainda que você disfarce.

Olhou-o com firmeza.

— Eu prefiro morrer e encarar o que for do que voltar ao de sempre: depressões, tristeza, fracasso… esse vazio que estava me devorando.

— Eu sei — respondeu ele, sereno. — E eu já te disse: essa decisão sempre será sua. Eu não estou aqui para arrancá-la de você.

Fez uma breve pausa.

— Eu só quero que você aceite o desafio. Depois… você decide.

Maria inclinou a cabeça, pensativa.

— Muito bem. Mas eu te proponho uma coisa. Suponhamos que eu aceite… que eu faça o que você me pede… e, ainda assim, eu me recuse a voltar. O que aconteceria?

Ángel levou a mão ao queixo, como se ponderasse a pergunta.

— Interessante. De repente você parece… mais segura de si. Até orgulhosa.

Fitou-a com leve intensidade.

— Eu me pergunto por que você não usou essa mesma força para enfrentar os desafios da vida.

Maria baixou o olhar por um instante.

— Eu não sei… — admitiu. — E agora, sinceramente, também não me importa. Talvez um dia eu pense nisso, mas não hoje.

Ergueu os olhos de novo.

— Responde ao que eu perguntei.

Ángel assentiu.

— Eu poderia intervir. Poderia te adormecer, te devolver ao seu corpo… e cortar o cordão que está te asfixiando. Você recobraria a consciência.

Maria negou de imediato.

— Não. Eu não acredito que você seja capaz de fazer uma coisa dessas. Isso seria trair a minha vontade.

— Você tem razão — admitiu ele, sem hesitar. — Eu conheço os meus limites. Eu só quis testar a sua determinação… e ela ficou clara.

Acrescentou com naturalidade:

— Além disso, você poderia tentar de novo amanhã… ou daqui a uma semana.

Maria soltou uma expiração curta.

— Pelo menos você é coerente — disse. — Eu não esperava isso.

Ángel sorriu de leve.

— Vejo que não te falta engenho.

Mas o tom dele mudou um pouco.

— O que me surpreende é você não ter mencionado algo essencial: o aprendizado.

Maria franziu a testa.

— Aprendizado?

— Sim. Esta experiência. Este momento. Tudo o que você está vivendo.

Inclinou-se um pouco na direção dela.

— A vida está te oferecendo uma oportunidade, Maria. Uma oportunidade de mudança. Você de verdade não pensou nisso?

Ela sustentou o olhar dele, desconfortável.

— Não seja tão duro comigo…

— Eu não estou sendo — retrucou ele. — Eu só estou tentando fazer você olhar além.

Fez-se um breve silêncio.

— Você sabe quantas pessoas se suicidam todos os dias no seu mundo?

Maria não respondeu.

— Demais — continuou ele. — E isso significa que muitos como eu… precisamos intervir o tempo todo. Acompanhar. Tentar impedir o irreversível.

Observou-a com gravidade.

— Você mesma levou o seu guia ao limite.

Maria desviou o olhar.

— Tá… chega — murmurou. — Você está me fazendo me sentir pior do que eu já estava.

O silêncio voltou. Desta vez mais denso. Mas algo tinha mudado nela. Ela respirou fundo.

— Está bem — disse, afinal. — Eu vou cumprir esse… jogo que você propõe. No fim das contas… o que eu tenho a perder?

Olhou-o, decidida.

— Mas com uma condição: no final, eu decido. Seja qual for o resultado.

Ángel assentiu lentamente.

— Eu não chamaria isso de jogo — explicou. — É algo muito mais importante do que isso.

A voz dele se suavizou.

— Logo você vai entender por quê.

Maria deixou escapar um sorriso leve, carregado de ironia.

— Claro… o sábio fala.

Fez um gesto com a mão.

— Bem. Já que estamos aqui, vamos acabar logo com isso. Confesso que comecei a ficar curiosa.

Fitou-o.

— Quando começamos?

— Agora — respondeu ele.

Houve uma breve pausa.

— Me diga, Maria… uma história escrita por Charles Dickens em meados do século XIX lhe parece familiar?

A mulher semicerrou os olhos.

— De que história você está falando?

Ángel sorriu de leve.

— De “Um Conto de Natal”.

Continua…

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