“É melhor se matar na intimidade. Sem fazer espetáculo.”
Maria apertou os lábios ao pensar nisso.
“O que o meu Tony diria quando chegasse da escola? Ia me ver destroçada no meio da rua… toda aquela gente olhando, cochichando… sentindo pena de mim e dele. Um órfão infeliz a quem tiraram os pais: um atropelado… e a outra, uma desgraçada que decidiu se suicidar.”
Negou lentamente com a cabeça.
“Não. Eu não aguentaria essas fofocas. Esses olhares. Essas perguntas idiotas sobre por que eu fiz isso.”
A respiração ficou mais pesada.
“Eu não sou assim. Esse não é o meu estilo. Sim… seria rápido. Se jogar e pronto. Mas… não. Não me convence. Barulho demais. Sangue demais. Público demais.”
Um gesto de repulsa atravessou seu rosto.
“Não quero chamar a atenção daquele bando de hipócritas. E eu odeio dar dó.”
Hesitou por um instante.
“E… e se eu falhar? E se eu não morrer? E se eu ficar viva… mas quebrada? Numa cadeira de rodas?”
Um arrepio lhe subiu pela coluna.
“Aí, sim, eu estaria perdida.”
Apertou os punhos.
“Todo o peso cairia sobre o meu filho. E com uma mãe assim… o que ele faria? Ficaria? Ou iria embora? Talvez acabasse fugindo… ou pior, se metendo em qualquer merda pra não pensar.”
Fechou os olhos com força.
“E eu… eu acabaria numa casa de repouso. Como esses idosos de quem eu cuido todos os dias. Sozinha. Esperando.”
Negou com raiva.
“Nem pensar. Não. Eu vou me matar, sim… mas do meu jeito.”
O pensamento mudou de repente.
“Puxa… Antonio.”
O rosto dela se retesou.
“Agora você aparece.”
Uma mistura de tristeza e confusão se instalou no seu olhar.
“O que foi? Eu acho que vou te encontrar? A gente vai recuperar o tempo perdido desses anos?”
Um sorriso amargo.
“Meu Deus… que bobagem eu digo. Se não existe vida depois da morte. Nem nada disso. Bem… eu não sei. Não tenho prova. Ninguém tem.”
Olhou para o vazio.
“Mas se existir alguma coisa… não pode ser pior do que isso. Acho eu. Embora, claro… quem é que consegue provar qualquer coisa?”
De repente, como se precisasse cortar aquele pensamento, Maria fechou a porta da varanda com uma pancada seca. O estrondo foi tão forte que, por um instante, ela achou que o vidro ia quebrar — mas não aconteceu nada. Ela, em contrapartida, estava completamente alterada. Não conseguia ficar parada. Foi até o banheiro. Abriu uma gavetinha com chave sob a pia e pegou um dos remédios para a ansiedade. Ficou encarando o próprio reflexo no espelho.
Não se reconhecia. Ou talvez reconhecesse… mas não queria. Aquele rosto desencaixado, apagado, estranho… não parecia o dela. E os pensamentos voltaram.
“É melhor me acalmar um pouco. Ainda tenho tempo.”
Observou os comprimidos.
“Vou tomar um. A crise passa. Não… melhor dois. Faz mais efeito. Não. Vou fazer o que o médico disse.”
Respirou fundo.
“Debaixo da língua. Absorve melhor… mais rápido.”
Ficou alguns segundos em silêncio.
“Droga… desse jeito eu não consigo. A angústia me trava. Eu não penso com clareza. Assim não se decide nada. Eu tenho que estar tranquila. Os ansiolíticos vão me ajudar.”
E ajudaram. Ela colocou os comprimidos debaixo da língua. Esperou. Depois bebeu um pouco de água e engoliu. Alguns minutos depois, começou a sentir o efeito. Um leve relaxamento. O corpo foi afrouxando. Caminhou pelo corredor, devagar. Mas logo sentiu as pernas falharem. Precisava se sentar. Então pensou no quarto. Na cama. Espiou a porta. Quase entrou. O sono a chamou com força.
“Não seja idiota, Maria”, disse a si mesma, com dureza. “É isso que você quer. O que o seu corpo está pedindo… mas você não pode deitar.”
Passou a mão no rosto.
“Você não dormiu a noite inteira. É normal estar assim. Não. Se eu deitar, eu durmo. E sabe-se lá quando eu acordo. O Tony já vai ter voltado… e eu não posso adiar isso.”
O pensamento ficou mais duro.
“Eu não vou ser tão miserável a ponto de fazer isso com ele em casa.”
Ficou imóvel por alguns segundos. E então decidiu.
“Pronto. Vou sentar no sofá. Só um momento. Pra me acalmar.”
Convenceu-se.
“Não tem problema. Só descansar um pouco. Se eu dormir… vai ser só um cochilinho.”
Mas assim que se sentou, perdeu o controle. Quase sem perceber, pegou uma almofada e ajeitou sob a cabeça. Depois puxou um cobertor que estava por perto e se cobriu. O corpo escolheu por ela. Ela se encolheu. Deixou-se levar. A medicação fez o resto. Antes de fechar os olhos, murmurou em voz alta:
— Só um pouquinho… eu preciso dormir…
E adormeceu.
Quando acordou, foi atordoada, desorientada. Levou alguns segundos para entender onde estava. Esfregou os olhos, desajeitada. A mente reagiu num estalo. Procurou o relógio. Quando viu a hora, o sangue lhe subiu ao rosto. Quase três da tarde. Tinha dormido perto de cinco horas. A noite em claro e os efeitos das benzodiazepinas tinham feito o trabalho delas. E, com isso, o plano dela parara. A raiva voltou com força.
“Estou farta. Não dá pra ser mais irresponsável.”
Sentou-se de supetão.
“O dia mais importante da minha vida… e eu durmo. Mas o que está acontecendo comigo?”
Respirou, ofegante.
“Ainda dá tempo. Ainda posso. E agora… sem medo.”
Levantou-se.
“Vamos, Maria. Chega de dúvida. Chega de estupidez.”
Cerrou os dentes.
“Agora ou nunca.”
Olhou ao redor.
“O Tony chega lá pelas cinco… e isso não dura nem um minuto.”
Obrigou-se a avançar.
“Não há mais nada pra pensar. Porque se eu penso… eu não vou fazer.”
E então, como um eco distante, uma frase surgiu na sua mente. Ela a tinha lido anos antes. Shakespeare: “Júlio César”.
“Os covardes morrem muitas vezes antes de sua verdadeira morte; os valentes só provam a morte uma vez.”
Continua…
