AS TRÈS VIDAS DE MARIA (5) Vertigem antes da queda

Era um quartinho pequeno, de pouco mais de seis metros quadrados, um cômodo quase esquecido onde mal entrava luz por uma janela estreita, instalada a cerca de dois metros de altura. Também não fazia falta muita claridade: ali se guardavam os utensílios de limpeza e algumas coisas de cozinha em desuso.

A janela, com cerca de oitenta centímetros de largura por cinquenta de altura, tinha uma particularidade: era protegida por grades de ferro que impediam qualquer acesso pelo lado de fora e possuía duas folhas de correr, para permitir a entrada de ar.

Maria observou o espaço com atenção.

O plano, na cabeça dela, parecia simples: em poucos instantes, tudo terminaria. Aos poucos, a consciência se apagaria… e seria o fim.
Tão simples.

No entanto, quando se viu ali, naquele mesmo lugar — quando percebeu que aquilo podia mesmo acontecer — algo se desestabilizou dentro dela. Um tremor incontrolável tomou conta de suas mãos. O coração começou a bater com violência, como tantas outras vezes em suas crises de angústia. Levou a mão à testa e depois ao peito, sentindo o suor frio que começava a cobrir a pele.

O medo.

Um medo que não combinava com a decisão que havia tomado.

E se, no fundo, ela não estivesse completamente convencida?

A cabeça dela era um turbilhão. Ainda tinha horas pela frente antes de Tony voltar, e não queria morrer daquele jeito — refém do pânico, da pressa, da confusão. Saiu do quarto quase sem pensar e foi para a sala. Abriu a janela que dava para a pequena varanda. Precisava de ar.

Já do lado de fora, inspirou fundo várias vezes, tentando recuperar o controle. Depois apoiou as mãos no guarda-corpo e se inclinou levemente para a frente. Olhou para baixo, avaliou a altura e deixou o olhar se perder na rua.

Os carros passavam normalmente. A vida seguia.

Uma mãe caminhava com o filho pequeno, provavelmente a caminho de uma creche ali perto. Dois aposentados conversavam num banco, como toda manhã, depois do café com leite e da torrada com azeite e tomate. Um táxi parou para pegar um passageiro. Até um cachorro sem dono vagava por ali, farejando a base de uma árvore.

E então, de repente, algo se partiu dentro dela.

“Mas… o que isso tem a ver comigo? Por que eu deveria me importar com o que essas pessoas fazem ou deixam de fazer? Com certeza elas não têm os meus problemas. Com certeza não vivem com esse peso nas costas.”

Passou a mão no rosto, exausta.

“Eu sei o que está acontecendo. A minha mente está tentando me distrair, quer me tirar daqui, cortar esse turbilhão antes que eu faça o que decidi fazer.”

Apertou os lábios.

“Estou farta. Farta de me explorarem no trabalho. Tantas horas por um salário miserável. Farta de chegar em casa e não ter ninguém. Ninguém que me abrace, que me beije, ninguém que me espere. Só silêncio.”

Fechou os olhos por um instante.

“E o Tony…”

A culpa apareceu na mesma hora.

“Tenho pena dele, muita. Mas eu não sei como lidar. Não tenho forças. Ele não me ouve e cada vez mais eu sinto que ele escapa por entre os dedos.”

A mente começou a disparar.

“E se ele se perde? E se ele para de estudar? E se acaba na rua, metido em alguma coisa que eu não entendo? E se se envolve com drogas? Ele está na pior idade… e eu já vi como essas histórias acabam.”

Respirou fundo, embora o ar parecesse insuficiente.

“E se ele quiser estudar e eu não puder pagar? E se eu tiver que dizer não? Ele me odiaria… claro que me odiaria. Sem pai… nesta casa… com uma mãe quebrada…”

Os olhos se encheram de lágrimas.

“E eu? Quem me sustenta? Quem percebe o que eu aguento?”

Um silêncio pesado se instalou por dentro.

“Estou esgotada… e do futuro… melhor nem falar.”

Por alguns segundos, ficou imóvel, olhando sem ver. E, ainda assim, no meio de todo aquele caos, algo persistia: uma estranha sensação de controle. Ela podia fazer. Podia acabar com tudo. Ninguém a impediria. Talvez não tivesse escolhido muita coisa na vida, mas aquela decisão era dela.

Obrigou-se a olhar o céu. Cinzento, pesado, quase ameaçador. As nuvens avançavam empurradas pelo vento e, ao longe, o mar ganhava um tom esverdeado que anunciava chuva. Tudo lhe parecia desagradável, irritante, absurdo.

Sentiu uma onda de raiva e, sem pensar, deu um chute no guarda-corpo. O impacto ecoou seco, mas não foi suficiente. A escuridão voltou a envolvê-la.

“E se eu me jogar daqui?”, pensou.

Olhou para baixo de novo.

“Seriam dois ou três segundos… rápido.”

Hesitou.

“Não… não me vejo capaz.”

Uma careta amarga cruzou seu rosto.

“E se der errado? E se eu não morrer? Seria ridículo…”

Negou com a cabeça, quase com desprezo.

“E além disso… eu não sou de chamar atenção.”

…Continua

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