AS TRÊS VIDAS DE MARIA (58) A vizinha da morta

A palavra atingiu Maria com uma violência inesperada.

— Covarde?

— Sim.

Maria teve que controlar a respiração.

— Por que a senhora pensa isso?

Merche deu de ombros.

— Porque todos nós temos problemas.

Maria permaneceu calada.

— Uns mais graves que outros, claro. Não vou comparar dores. Perder o marido daquela maneira deve ter sido terrível. Mas daí a tirar a própria vida vai uma grande distância.

Maria apertou os lábios.

— Olhe, estou prestes a completar cinquenta anos e, no ano passado, meu marido me deixou por outra mulher.

— Sinto muito.

— Eu também.

A vizinha soltou uma breve risada amarga.

— Depois de tantos anos juntos, ele decidiu que preferia uma mulher mais jovem. Imagine como eu me senti.

Maria a observou com atenção.

— Eu tinha estado ao lado dele nos bons e nos maus momentos. Tinha aguentado muita coisa por causa daquele relacionamento.

— Deve ter sido muito doloroso.

— Foi. Mas o que eu tinha que fazer? Amarrar uma corda no pescoço?

Maria sentiu um calafrio.

— Não.

— Exatamente.

A vizinha negou com firmeza.

— Eu ia acabar com a minha vida só porque um homem decidiu me abandonar?

Maria baixou os olhos.

— Suponho que não.

— Claro que não.

Merche continuou falando, sem perceber o terremoto que provocava em Maria.

— A gente chora, desaba por um tempo, fica com raiva do mundo… mas depois tem que se levantar.

— Nem sempre é fácil.

— Nunca disse que fosse fácil.

A resposta surpreendeu Maria.

— Mas uma coisa é ser difícil e outra é desistir de vez. Por isso acho que Maria errou.

— Talvez ela estivesse sofrendo muito mais do que a senhora imaginava.

— Provavelmente.

— Talvez tenha chegado a um ponto em que não conseguia enxergar saída nenhuma.

— Pode ser. Eu não estava na cabeça dela.

Aquela pequena concessão trouxe algum alívio a Maria.

— Mas continuo achando que ela devia ter pedido ajuda.

— Ajuda?

— Sim. A qualquer pessoa. À família, a um médico, a uma amiga, a um vizinho… O que não dá é ir embora e deixar para trás um filho em plena adolescência.

Maria ficou imóvel.

Tony. De novo Tony. Sempre Tony.

— A senhora o conhecia?

— Claro. Era um bom garoto. Pobre menino.

Maria sentiu as lágrimas ameaçarem surgir.

— O que aconteceu com ele?

A vizinha deu de ombros.

— Não sei direito. Depois daquilo, tudo se complicou e ele acabou saindo do apartamento.

Maria olhou para cima. Agora entendia por que outras pessoas moravam ali.

— A vida segue. Eu acho que só temos uma — acrescentou. — E justamente por isso temos que aproveitá-la.

Maria ergueu a cabeça.

— A senhora não acredita que exista alguma coisa depois?

— Nada. Quando acaba, acabou.

Maria pensou em Ángel. Em dona Ana. Em Antonio. Em Tony. Em tudo o que tinha visto desde que abandonou o corpo. Pela primeira vez, sentiu vontade de sorrir.

— Talvez um dia a senhora tenha uma surpresa.

Merche arqueou as sobrancelhas.

— Como é?

— Nada. Uma bobagem.

Continua…

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