AS TRÊS VIDAS DE MARIA (25) O segundo limiar

— Nossa, dona Ana… Eu não esperava essa metáfora da árvore e dos frutos. Para a sua idade, a senhora conserva uma lucidez admirável, sobretudo quando comparada à desordem que reina dentro da minha cabeça.

A idosa sorriu com afeto.

— Há decisões que dizem respeito apenas à consciência de cada pessoa. A única coisa que lhe peço é que leve em consideração todas as circunstâncias que interferiram na sua vida até este momento. Pondere cada uma delas com serenidade e, acima de tudo, seja justa consigo mesma. É o mínimo que você deve a si mesma.

Maria permaneceu alguns segundos em silêncio.

— Veja, Ana… os problemas me atordoam. Eles me deixam paralisada, sem respostas. Quando aparecem, não encontro alternativas e perco a vontade de seguir em frente. É como se a realidade se tornasse escura demais.

— Então abra a porta da sua alma para que a luz e o ar entrem — respondeu dona Ana. — Eles sempre fazem bem, não acha?

Apertou-lhe suavemente a mão.

— Repito: as dificuldades não são uma maldição inevitável, mas uma oportunidade de crescer e avançar. Se você mudar a maneira de enxergá-las, primeiro o seu pensamento ficará mais claro e, depois, talvez a sua realidade também comece a mudar.

As palavras alcançaram as camadas mais profundas de Maria. As lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto, não tanto por tristeza, mas pela sensação de que algo, lentamente, abria caminho dentro dela.

Naquele momento, várias palmas ressoaram pelo pátio envidraçado.

Uma funcionária levantou a voz:

— Senhoras e senhores, é uma hora. Chegou a hora do almoço. Vamos passando para o refeitório, por favor.

Maria olhou para dona Ana com inquietação e segurou-lhe a mão direita.

— A senhora já vai embora?

— Mais do que ir embora, vão me levar — respondeu a idosa, com um sorriso. — Esta conversa não poderia durar o dia inteiro. Aqui existem horários e regras a cumprir.

Sua expressão ficou mais séria.

— Pense em tudo o que conversamos. As decisões mais importantes da existência, no fim das contas, nós as tomamos sozinhos. Esse é o preço de exercer um direito tão belo quanto a liberdade: escolher aquilo que consideramos mais conveniente.

Maria apertou-lhe a mão, como se quisesse retê-la por mais alguns minutos.

— Não vou me esquecer de você — prosseguiu Ana. — Pedirei a Deus que a inspire e lhe conceda a sabedoria necessária.

Um cuidador se colocou atrás da cadeira de rodas e segurou as alças.

— Adeus, de coração, Maria.

A mulher sentiu a emoção apertar-lhe a garganta.

— Adeus, do fundo da alma, querida professora. A senhora me ensinou tantas coisas que eu nunca conseguirei agradecer o suficiente. Como eu gostaria de ter assistido às suas aulas… Que Deus a acompanhe sempre.

Dona Ana lhe dedicou um último sorriso enquanto o funcionário começava a empurrar a cadeira em direção ao refeitório.

Maria permaneceu imóvel, contemplando-a até que a figura da idosa desapareceu no outro extremo do claustro.

Então voltou a se sentir sozinha.

A ausência de dona Ana deixou para trás um vazio inesperado. Durante aquela conversa, sua voz serena havia conseguido acalmar a confusão que Maria carregava por dentro. Agora, sem ela, as dúvidas retornavam pouco a pouco.

Como uma mulher cuja vida estivera repleta de perdas podia conservar tamanha dignidade? Havia perdido o único filho e, depois, o marido e, ainda assim, não tinha desistido. Seguira em frente, sustentada por uma força que nem ela mesma sabia possuir.

“Que belo exemplo”, pensou Maria. “Que capacidade de lutar sem renunciar à vida.”

Inspirada por aqueles ensinamentos, embora ainda dominada pela incerteza, percebeu de repente uma claridade intensa às suas costas.

A luz começou a crescer.

Intrigada, virou-se e avançou em direção à origem daquele resplendor.

Uma figura conhecida foi tomando forma.

— Saudações novamente, Maria. Suponho que não tenha se esquecido de mim.

— Ángel…

— O mesmo. Seu guia, para usar o nome que você escolheu. Você já sabe que me ocupo de auxiliar pessoas que atravessam situações como a sua. Na nossa dimensão, todos os alarmes são acionados quando algo assim acontece.

Maria o observou com cautela.

— Sim, eu me lembro de você. Embora ainda esteja impressionada com o que acabei de viver. Não consigo tirar dona Ana da cabeça, nem tudo o que ela me disse.

— Foi uma experiência muito especial — admitiu Ángel. — E necessária.

Sua expressão adquiriu uma gravidade serena.

— Há algo que você precisa compreender. A existência física tem seus próprios tempos. O nascimento e a morte fazem parte de uma ordem que nem sempre está ao alcance de vocês compreender. No entanto, o livre-arbítrio permite que uma pessoa tente antecipar, pelas próprias mãos, o momento de abandonar o mundo terreno.

Fez uma pausa antes de continuar.

— Por isso existem espíritos especializados em acompanhar essas situações. Respeito a sua liberdade, Maria, mas também tenho a responsabilidade de auxiliá-la e ajudá-la a compreender as consequências da sua decisão.

Olhou para ela com ternura.

— A autodestruição não resolve aquilo que a provoca. Apenas transfere o conflito para outro estado. Foi por isso que vim até você.

Maria baixou o olhar, pensativa.

— Você percebeu que o amor é uma das forças mais poderosas que existem? — perguntou Ángel. — O afeto que dona Ana sente pelo filho, o amor de Alberto pelo pai, a preocupação que ela demonstrou por você… nada disso desaparece.

Depois de alguns instantes tentando organizar os pensamentos, Maria respondeu:

— Estou começando a acreditar no que você diz. Depois de tudo o que vivi na residência, fica difícil negar. A experiência mexeu muito comigo, e ainda preciso de tempo para assimilá-la.

— Isso é um bom sinal.

— Suponho que a confusão me obrigue a pensar. Mas espero que você não tenha voltado para me dar uma bronca ou me ameaçar com todo tipo de castigo caso eu me recuse a voltar.

Ángel negou suavemente com a cabeça.

— Nada poderia estar mais distante da minha intenção. Eu já expliquei que não pretendo anular a sua vontade. Minha obrigação é mostrar aquilo que você precisa conhecer. A decisão final continuará sendo sua.

Maria o encarou com desconfiança.

— Então por que você voltou?

— Porque chegou o momento de você enfrentar a segunda prova.

Ela abriu um pouco os olhos.

— A segunda?

— Isso mesmo. Embora você não consiga me ver durante a experiência, permanecerei perto. Vou observá-la e velar por você.

A expressão de Ángel ficou mais séria.

— Mas preciso adverti-la de uma coisa: a intensidade irá aumentar. A primeira prova tinha a finalidade de prepará-la, de formular as perguntas iniciais. A partir de agora, a carga emocional será maior.

Maria engoliu em seco.

— Isso não parece muito tranquilizador.

— Desafios difíceis exigem respostas profundas. E é isso que precisamos descobrir: se o seu desejo de abandonar a vida é realmente firme ou se, em algum recanto da sua alma, ainda existe uma razão para voltar.

O resplendor que envolvia Ángel pareceu crescer.

— É justo, não acha?

Maria não respondeu.

Pela primeira vez, sentiu medo do que poderia encontrar do outro lado daquela nova prova.

Continua…

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